Mulheres com doenças mentais têm tratamento diferente dos homens

O distrito de Bragança dispõe de uma unidade para doentes mentais única na região transmontana, mas até agora inacessível a mulheres com doenças crónicas deste foro, de acordo com dados divulgados pelos responsáveis.

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A Unidade de Doentes de Evolução Prolongada (UDEP), na Quinta da Trajinha, em Bragança, dispõe, além da vertente terapêutica, de valências para reabilitação e reinserção dos doentes na sociedade e está envolvida num projecto transfronteiriço com Espanha.

Única em toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, tem 30 utentes, metade da sua capacidade, mas todos homens.

As mulheres da região com doenças mentais são tratadas numa outra unidade para agudos, junto ao hospital distrital, sem as mesmas condições.

Os responsáveis pelo projecto no Centro Hospitalar do Nordeste (CHNE) Carlos Cadavez e Cláudia Miranda garantiram "que não se trata de discriminação"

Segundo dizem, por questões culturais mulheres e homens estiveram sempre separados e, apesar das normas actuais, mesmo a nível Europeu, recomendarem o contrário, em Bragança mantém-se a "tradição".

A unidade tem um espaço destinado a mulheres que está vazio porque, dizem, não houve ainda "nenhuma decisão técnica (médica) no sentido de enviar mulheres para ali.

Atribuem ainda a situação ao facto de "haver mais homens que mulheres com doenças do foro mental crónicas, e de "as famílias acolherem melhor as doentes femininas do que os homens, por serem mais violentos".

O envelhecimento e o isolamento das regiões do interior como Bragança têm sido determinantes, segundo os técnicos, para o aumento dos doentes do foro psiquiátrico.

A realidade é semelhante na zona vizinha espanhola de Zamora que mantém com esta unidade de Bragança uma cooperação há quatro anos, no âmbito do programa transfronteiriço Interreg.

Periodicamente organizam com os doentes dos dois lados da fronteira convívios e torneios desportivos, como o que decorreu hoje em Bragança, e que servem também para fazer um balanço do trabalho feito.

A unidade de Bragança, instalada num antigo albergue da PSP, é considerada uma referência por, para além dos tradicionais tratamentos, os métodos terapêuticos envolverem actividades ocupacionais e a preparação para a reinserção na sociedade.

Esta preparação é feita numa unidade de vida autónoma, com capacidade para oito utentes, onde actualmente dois fazem "uma vida quase normal".

Na quinta existem ainda oficinas onde todos desenvolvem trabalhos manuais e o extenso espaço ao ar livre, com horta e olival, é tratado pelos doentes para manterem a sua ligação às origens rurais.

Os trabalhos realizados pelos doentes portugueses e espanhóis são divulgados periodicamente em feiras transfronteiriças, no âmbito da cooperação com Espanha, que abrange três projectos no valor de três milhões de euros co-financiados pelo programa Interreg.

O encontro de hoje ficou marcado pela manifestação de desagrado do director António Machado que se ausentou da cerimónia em protesto por o protocolo se ter esquecido dele, dado que dirige, há 25 anos, a psiquiatria e a unidade de Bragança.

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