Mulheres enfrentam desafio que os homens recusaram em Pegões

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Um grupo de 14 mulheres, sem filiação partidária, aceitou o desafio de concorrer nas próximas eleições autárquicas à Assembleia de Freguesia de Pegões, Montijo, numa lista do PSD, depois de todos os homens contactados terem recusado.

Uma terra mais limpa, cuidados de saúde, estradas alcatroadas, apoios para os idosos e as crianças são as metas que se propõem alcançar estas mulheres sem qualquer experiência na política, mas que sentem diariamente o que lhes falta como munícipes, trabalhadoras e mães.

"Ideias não nos faltam", afirmou à agência Lusa Bibiana Pacheco, 59 anos, esteticista-massagista formadora, que encabeça a lista "Renovação e Coragem".

Uma universitária, três empresárias, uma reformada administrativa, uma educadora de infância, uma mediadora de seguros, uma escriturária, duas comerciantes, uma estudante de enfermagem, uma empregada de balcão e uma empregada de escritório completam a lista.

Quase todas casadas e com filhos - há apenas uma excepção -, afirmam que juntas formam uma lista muito homogénea, "em termos de experiências de vida".

"Foram vários homens convidados, mas nenhum aceitou. Não sei se é por o cargo ser mal pago", diz Bibiana, manifestando-se disposta a "mostrar a diferença", juntamente com as companheiras.

Querem contribuir para o desenvolvimento da freguesia, que dizem estar "um pouco estagnado".

Pegões é um freguesia rural situada na zona Este do concelho de Montijo, com 24,39 quilómetros quadrados e 2.104 habitantes.

"É uma zona com uma população algo envelhecida e esse será um pólo do nosso trabalho, tentar fazer alguma coisa pelos idosos, que já deram muito à freguesia", adianta a número da lista.

Segue-se Isabel Serrão, 34 anos, com dois filhos pequenos que têm de frequentar a escola e a creche noutra freguesia por não haver, em Pegões, Actividades de Tempos Livres ou infantário onde as crianças possam ficar até as mães regressarem do trabalho.

"Uma das nossas bandeiras vai ser fazer aqui uma creche porque quando as mães terminam a licença de maternidade têm de deixar os filhos com a família ou levá-los para outra freguesia, por vezes outro concelho", relata Bibiana Pacheco.

Também a falta de cuidados médicos constitui uma preocupação.

"Temos um centro de saúde com boas instalações, mas sem meios humanos", refere a cabeça-de-lista, logo secundada pelas restantes candidatas.

Queixam-se da dificuldade em marcar consultas e dos sucessivos adiamentos, além da falta de cuidados de emergência.

"Se uma pessoa partir uma perna tem de ir ao Montijo (a cerca de 30 quilómetros). Se precisar de um curativo não lhe fazem se não tiver consulta marcada. As pessoas acabam por ter de ir ao particular se precisarem", lamenta Bibiana Pacheco.

Para os idosos sugere a criação de uma associação que lhes dê apoio, uma vez que para fazerem fisioterapia têm de viajar até ao Montijo, numa carrinha que os vai buscar a Pegões, e os transporta pelo interior da freguesia em estradas de terra batida.

"Andam ali aos solavancos, cheios de dores, que sucesso pode ter o tratamento", questiona.

Estas estreantes na política pretendem cuidar da freguesia como das suas próprias casas e mostram-se incomodadas por os contentores do lixo não serem lavados e por ainda não ter sido ampliada uma pequena Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) que provoca mau cheiro por estar saturada.

Ruas sem nome e portas com números de polícia atribuídos sem qualquer sequência lógica são outro motivo de queixa, numa freguesia considerada ainda jovem, mas já com 20 anos de existência.

"Vamos exigir da câmara um funcionário na Junta de Freguesia para resolver os problemas daqui. Independentemente de quem ganhe as eleições, vamos pedir isso", afiança Bibiana.

O manifesto eleitoral está quase concluído e segue-se uma campanha porta a porta para apresentarem pessoalmente o projecto.

Cravidão Duarte, o militante do PSD que reuniu o grupo, afirma tratar-se de uma forma diferente de política.

"Elas vão casa das pessoas, que as conhecem, explicar o que pretendem fazer. À uma campanha personalizada", sublinha.

No próximo mês vão conhecer a resposta do eleitorado.

"Pelo menos não podem dizer que não tentámos. Criticar é fácil, nós vamos tentar fazer alguma coisa", diz Isabel, enquanto espreita o filho que brinca por perto e já pensa na tarefa que se segue à entrevista: comprar o material escolar para o ano lectivo, que ainda vai ser noutra freguesia.

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