Na Póvoa de Varzim cemitério de arquitectura "audaz" revoluciona culto aos mortos
A Póvoa de Varzim inaugura, ainda em Fevereiro, por entre incertezas quanto à reacção de uma população "muita dada" ao culto dos mortos, um cemitério de arquitectura "audaz", onde serão proibidos "excessos" nas decorações.
Neste cemitério, as sepulturas tem lajes iguais, em granito, que não poderão ser alteradas, disse hoje o presidente da Câmara, Macedo Vieira.
Também serão proibidas as decorações para além de uma lápide com menção ao defunto, um pequeno jarro de flores e uma discreta cruz.
"Todos os outros excessos, que marcam os cemitérios portugueses da actualidade, são proibidos", assegurou o autarca, em declarações à agência Lusa.
Acrescentou que as limitações se estendem aos jazigos/capela.
"A sua construção só será permitida se obedecer a balizas estéticas previamente definidas. Não vai dar para cada um construir o mausoléu que entender", advertiu.
No novo cemitério "há muitos relvados, passagens amplas, árvores e bancos, zonas propícias à meditação", descreveu Macedo Vieira.
Um edifício de apoio, duas salas para velório e uma capela integram também esta "peça arquitectónica audaz" e "típica dos dias de hoje", acrescentou.
Trata-se, na avaliação de Macedo Vieira, de uma ruptura com um conceito de cemitério "muito barroco", ainda dominante em Portugal, mas "muito longe do modelo de cemitérios norte-americanos ou nórdicos".
O autarca garantiu que a população "vai fazendo a comparação entre o caos, no velho cemitério, e a organização, no novo", e "diz muito bem" da solução encontrada.
Já Elisa Miranda, da principal agência funerária da Póvoa de Varzim, duvida do apoio generalizado ao projecto do novo cemitério.
"As pessoas começam a falar muito do assunto e, por aquilo que vou ouvindo, não estão muito de acordo", disse.
"Os poveiros são muito dados ao culto dos mortos. No dia dos fiéis defuntos, há quem gaste cem contos [500 euros] em flores para decorar as campas dos seus entes queridos. E o novo cemitério não vai permitir coisas destas", acrescentou.
Segundo Elisa Miranda, outro "problema" do novo cemitério reside na sua localização, já fora do perímetro urbano, junto à auto- estrada A28, o que "obriga a romper" com a tradição local dos funerais a pé.
O presidente da Câmara contrapôs que não havia terrenos disponíveis dentro da área urbana, nem para construção do novo cemitério nem para ampliação do actual, em vias de sobrelotação.
A primeira fase do novo cemitério, que custou dois milhões de euros, tem 792 sepulturas e espaço para 250 jazigos-capela.
O presidente da Câmara não adiantou uma data concreta para a sua entrada em funcionamento, mas garantiu que ocorrerá até ao final deste mês.
Está já prevista, entretanto, a sua ampliação para permitir um total de 1.320 sepulturas e 500 capelas, de modo a responder às necessidades previstas para os próximos 20 anos.
O projecto para a segunda fase, com data de execução ainda não definida, prevê também a construção de um crematório.
Macedo Vieira justificou este equipamento pelas "dificuldades de resposta" do único crematório do Norte de Portugal, no Cemitério do Prado do Repouso, Porto.
A agente funerária Elisa Miranda entende o investimento como "desnecessário", argumentando que "não há tradição" local de cremar os mortos.
"As cremações feitas anualmente pelo conjunto dos agentes funerários da Póvoa de Varzim não chegam a dez e, quando são necessárias, nunca tive dificuldades em marcá-las no Prado do Repouso", afirmou.