Na Praia da Luz turistas são os mesmos, residentes evitam falar do caso

** Por Cecília Malheiro (Texto) e Luís Forra (Fotos), da Agência Lusa **

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Praia da Luz, Lagos, 27 Abr (Lusa) - Um ano depois do desaparecimento da menina inglesa Madeleine McCann, de quatro anos de idade, reina uma aparente normalidade na Praia da Luz, aldeia acostada ao mar e ao turismo. A atitude de reserva e medo dos habitantes e a vontade de esquecer o caso "Maddie" sobrepõem-se à espontaneidade em falar do mistério.

"Está tudo igual, não há diferença no número de turistas nesta altura em relação ao ano passado", diz à Lusa, quase em surdina, uma empregada de limpeza do Ocean Club, empreendimento turístico onde a família McCann estava alojada a 03 de Maio, dia do desaparecimento da filha Madeleine.

Prestes a abalar numa carrinha branca com meia dúzia de colegas para entregar toalhas e lençóis limpos nos apartamentos alugados do Ocean Club, a empregada de limpeza teve ainda tempo para dizer "desculpe, mas tenho de ir trabalhar".

São 10:30 e mais de 25 graus ao sol. O apartamento do rés-do-chão de onde Madeleine desapareceu há um ano foi vendido a ingleses. As janelas totalmente fechadas sem deixar a luz penetrar, ao contrário dos apartamentos contíguos, é um indício de que ninguém está de férias naquele apartamento.

"Há menos gente nesta altura do ano, mas a culpa pode não ser só do desaparecimento da menina, agora há outros destinos turísticos mais baratos como o Egipto ou a Turquia", justifica uma varredora da Multiserviços que a Lusa encontrou a varrer o lixo mesmo ao lado do apartamento de onde Madeleine desapareceu há um ano.

Uma das piscinas do Ocean Club onde os McCann e os amigos costumavam banhar-se está quase vazia, apenas uma mãe e dois filhos descansam por ali perto nas espreguiçadeiras. Agora os veraneantes do Ocean Club refugiam-se numa piscina mais reservada do resort, novas directivas do clube, conta à Lusa uma fonte que pediu anonimato.

Os dois campos de ténis do Ocean Club onde o pai de Madeleine, Gerry McCann, costumava jogar estão vazios.

Antes de chegar à recepção do Ocean Club continua a ler-se "Por favor queira mostrar o seu cartão de associado. Obrigada", um claro indício de que é um clube restrito onde jornalistas não podem entrar.

A escassos metros do apartamento, está a casa "Liliana", de Robert Murat, o primeiro arguido do caso "Maddie". Há três arguidos actualmente: Murat e os pais da menina desaparecida. Também na vivenda de Murat não se vê movimento, apenas uma viatura cinzenta metalizada estacionada no interior do pátio se consegue avistar.

Junto à Igreja da Nossa Senhora da Luz, frequentada pelos pais de Madeleine, Kate e Gerry, logo depois do desaparecimento da filha, pode ler-se, num "placard", um convite à população:

"Junta-te a nós no sábado dia 03 de Maio, pelas 18:30, na celebração ecuménica pela Madeleine McCann desaparecida na nossa Praia da Luz há exactamente um ano" é a mensagem escrita em idioma português e inglês.

O secretário da Junta de Freguesia da Praia da Luz, João Arribança, 63 anos, lembrou que o padre português decidiu não dar mais entrevistas aos jornalistas, ficou incomodado com certas conexões feitas entre a igreja e o desaparecimento de Madeleine, acrescentou.

"Ainda tenho esperança, para bem de muita gente, que a verdade venha à tona. Chocou muito a aldeia. O caso sucedeu e não o conseguimos explicar", observou aquele responsável, sustentando, no entanto, que o caso Maddie não veio afastar o turismo da freguesia.

"Isto não afectou a Praia da Luz, ficou foi mais conhecida no mundo. Prevejo para este Verão mais turistas que no ano passado", considerou João Arribança, referindo que uma casa na Luz à beira mar está a rondar 200 mil contos (cerca de um milhão de euros).

Um dos comerciantes mais famosos daquela praia, o dono de um supermercado, não quis prestar declarações à Lusa, diz que prefere pôr uma pedra sobre o assunto e vira costas transtornado.

A corroborar com o comerciante está Pedro Melo, de 26 anos e exclusivamente vividos na Praia da Luz.

"Acho que há limites para tudo", lança, do alto da sua bicicleta, durante as acrobacias de BMX "free style" (estilo livre), desporto que pratica religiosamente todos os dias em frente à Igreja de Nossa Senhora da Luz.

Para o jovem filho da terra é incomodativo virem pessoas passar férias ao Algarve e deslocarem-se à Praia da Luz só para virem apreciar e conhecer o sítio de onde desapareceu uma menina, como se fosse um santuário.

"Acho estranho a quantidade de pessoas que vêm ver a cena. São capazes de vir de Albufeira e dar aqui um salto só para verem o restaurante e onde é o apartamento e pedirem para ver a igreja da Madeleine que no fundo se chama igreja da Luz", corrige o jovem acrobata.

Segundo Pedro Melo, o número de turistas também não terá diminuído naquela aldeia um ano depois do desaparecimento da pequena inglesa.

"Os turistas são os mesmos e a fazer o mesmo: sentam-se no bar e os putos andam como quiserem, vão comprar batatas fritas, todos vermelhos que nem lagostas, vão para a praia", desabafa.

Um empregado do resort Ocean Club, que se escusou a dar a identidade, corrobora com o amigo e comenta que muitas vezes mandam as crianças para junto dos empregados: "nós é que temos de os aturar, mas ninguém me paga para ser babysitter, não sou pai", dispara.

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