Natal não é dia para dieta - Nutricionistas

Susana Bernardes, Agência Lusa

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Lisboa, 14 Dez (Lusa) - Uma mesa com azevias, rabanadas, filhós e bolo-rei pode não ser afinal um cenário proibido para quem se preocupa com a saúde e quer ao mesmo tempo deliciar-se com as iguarias natalícias, no entender de vários nutricionistas.

Um Natal saudável é um "Natal injusto" sintetizou à agência Lusa o nutricionista Fernando Póvoas.

Para Isabel do Carmo, endocrinologista e especialista em nutrição, "o saudável é comer (tudo) neste dia" enquanto para o nutricionista João Breda os abusos natalícios são tolerados desde que acompanhados de "boas caminhadas".

O problema do Natal está nos doces, sobretudo nos fritos, porque a tradicional ceia, composta por bacalhau, couve e batatas temperadas com azeite, é bem vista pelos especialistas atendendo ao seu valor nutricional.

Os três nutricionistas contactados pela agência Lusa são unânimes em dizer que um dia não são dias e que o Natal é a grande excepção anual.

João Breda diz que "nunca ninguém quis que o Natal fosse saudável", mas que as pessoas "tivessem consciência que em termos calóricos é um risco".

Este especialista recorda que tradicionalmente só havia iguarias no dia de Natal, mas que actualmente os abusos culinários se estendem pelas "festas".

Para Isabel do Carmo, neste período são permitidos quatro dias de "transgressão", a véspera e o dia de Natal bem como o último e o primeiro dias do ano.

Mas para esta permissão é necessário, defende a endocrinologista, que se tenha cuidado na alimentação durante o resto do ano.

As excepções são os doentes diabéticos, que só devem "provar os doces e após as refeições", de acordo com a médica, que lembra existirem outros doentes para quem o Natal não pode ser muito doce.

Igualmente permissivo à data, Fernando Póvoas defende que o Natal é um dia de "festa, de família e de sabores".

Este nutricionista defende, aliás, na sua "filosofia" de dieta, que se faça uma pausa no regime, um dia por semana.

Contudo, é peremptório: "Natal é Natal, os dias a seguir já não são. É necessário despachar as sobras".

Toda esta teoria está aliás bem assimilada entre aqueles que estão sujeitos a um regime alimentar.

Carlos Oliveira, presidente da Associação de Doentes Obesos e ex-Obesos de Portugal, sabe que a obesidade é uma doença crónica que não pode ser descurada, lembrando contudo que "uma dieta com grandes sacrifícios é uma dieta falhada".

Para ajudar a digerir e a gastar calorias, João Breda aconselha uma boa caminhada, que deve ser diária e incluir mil passos, correspondente a um passeio de cerca de uma hora.

A actividade física é igualmente realçada por Fernando Póvoas, que defende a mudança de um "país de navegantes para um país de caminhantes".

Este especialista costuma dar alguns "truques" aos seus pacientes, designadamente não irem para a mesa com fome, optando por comer uma peça de fruta acompanhada por uma bolacha ou pedaço de pão, uma hora antes da refeição.

Atendendo a que as refeições são prolongadas e em família, Fernando Póvoas aconselha a que se mastigue devagar, evitando estar sempre a comer, que se retire a pele do bacalhau, que não se abuse do azeite, apesar de ser uma gordura saudável, e que se prefira o vinho tinto e se evitem misturas e as bebidas brancas hiper calóricas e alcoólicas, como o whisky e a aguardente.

Isabel do Carmo adverte que esta época é uma "altura de risco para entrar em função o mecanismo psicológico - ´perdido por cem perdido por mil´" - seja em termos de dieta, consumo de tabaco ou álcool.

Porque esta altura do ano não parece muito aliciante fazer dieta, João Breda diz que regista um decréscimo de consultas em Dezembro, enquanto Isabel do Carmo adianta que não aconselha o início de dietas nesta altura.

Sobre a venda de produtos naturais, à venda nas farmácias, para limitar a absorção de gorduras, todos os especialistas desvalorizam o êxito deste recurso, contrariando a publicidade existente em algumas farmácias e imprensa.

Para Fernando Póvoas, estes produtos "só fazem mal à carteira e são um logro", enquanto Isabel do Carmo diz que se trata de "publicidade enganosa".

"Destes medicamentos não se devem esperar milagres, mas não representam um risco para a saúde", referiu João Breda.

Mesmo assim, algumas farmácias registaram o ano passado bons volumes de venda destes produtos, que atribuem ao efeito da publicidade.

Na Farmácia Belém, em Lisboa, venderam-se em 2006 entre 20 a 30 embalagens de produtos de emagrecimento, o que ainda não aconteceu este ano, de acordo com o director clínico.

No Porto, na Farmácia da Foz, a procura também ainda não aconteceu este ano, mas no ano passado foram vendidas oito caixas, o que a directora clínica considera ser considerável.

Segundo os responsáveis farmacêuticos contactados pela Lusa, o consumo só surge quando aparece a publicidade a esses produtos.

SB

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