Navio-escola dos EUA aberto ao público na doca de Lisboa
O único veleiro ao serviço do governo norte-americano chegou hoje a Lisboa, onde permanecerá até quarta-feira, na zona ribeirinha de Santa Apolónia, aberto a todos os que queiram conhecer o navio-escola que forma oficiais da guarda costeira.
"A lição mais importante é adquirirem a confiança em si próprios necessária para se tornarem bons líderes", revelou à Lusa o capitão do veleiro Eagle, Eric Shaw.
Para o cadete Jeff West, de 21 anos, nenhum outro navio exige tantas competências e tanto trabalho de equipa.
"Tem uma alma completamente diferente de qualquer outro barco", acrescentou o cadete, referindo-se ao veleiro no feminino, como é prática na língua inglesa.
O Eagle esteve há cinco dias com o seu congénere português, o navio-escola Sagres, no porto da cidade francesa de Cherbourg.
Tal como o Sagres, o Eagle foi construído na cidade alemã de Hamburgo, em 1936 (um ano antes do navio português), acabando por ser entregue à guarda costeira norte-americana como despojo de guerra, no final da II Guerra Mundial.
Os seus 22.300 metros quadrados de velas estão distribuídos por três mastros.
A bordo do Eagle, mesmo as rotinas normais do quotidiano são gestos coordenados em equipa.
É que 200 pessoas, entre tripulação e cadetes, a bordo de um veleiro de 295 pés (cerca de 90 metros) obrigam à organização de turnos para comer e tomar duche.
"A comida é muito importante para manter a moral de tanta gente a bordo", brincou Jeff West, acrescentando que os almoços começam a ser servidos às 11:00.
A possibilidade de viajar foi o que mais atraiu o cadete natural de Palm City, na Florida, à academia da guarda costeira.
"Dentro de seis meses sei onde vou ser colocado, espero que seja no Havai", disse, frisando que as colocações são feitas com base nas notas dos alunos.
Talvez seja o sangue luso de Stacey Chmielecki, neta de emigrantes portuguesas, que a faz sonhar com uma colocação num destino quente, bem diferente da sua cidade natal, no estado do Connecticut.
Com dois irmãos na guarda costeira, Stacey corrobora a opinião de Jeff West, segundo a qual muitos jovens vão estudar para a academia situada na cidade de New London porque têm familiares a trabalhar na guarda costeira.
Mas tal como acontece com outras forças militares, o recrutamento é também promovido nos liceus norte-americanos pelos próprios cadetes.
"Temos sempre boas histórias para contar da vida a bordo e das viagens, os alunos gostam e alguns aderem", disse Jeff, sublinhando que foi com "orgulho" que nas últimas férias do Natal regressou fardado ao seu antigo liceu para aliciar novos recrutas.
O jovem norte-americano está a um ano de se tornar oficial da guarda costeira, um serviço tutelado pelo Departamento de Segurança Interna que se dedica essencialmente a operações de salvamento e socorro, ao combate ao tráfico de droga e emigração ilegal.
Depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e no Pentágono foram criadas as Marinie Safety Secure Teams, integradas na guarda costeira e vocacionadas para a luta anti- terrorista, que se encontram de prevenção ao largo de grandes cidades como Nova Iorque, Boston ou Seattle.
A guarda costeira dedica-se ainda a acções de fiscalização das "fronteiras" das zonas de pesca dos Estados Unidos, como acontece no Alasca, zona de disputa entre pescadores norte-americanos e russos.
"Os pescadores ou amam-nos ou odeiam-nos", resume Brenna White.
A cadete de 21 anos, filha e neta de militares, foi admitida na prestigiada academia do Exército de Westpoint, mas preferiu ingressar na academia da guarda costeira.
"Numa academia do Exército ou da Marinha, os alunos passam a vida a prepararem-se para uma coisa que não deve acontecer: a guerra", declarou.
Para Brenna, a guarda costeira é como uma "força de manutenção de paz" interna e foi a possibilidade de "ajudar os outros", sobretudo nas operações de salvamento, que a atraiu.
As primeiras mulheres entraram na academia da guarda costeira em 1976 e representam actualmente 30 por cento dos efectivos, enquanto que nas outras forças militares a média feminina não ultrapassa os 10 por cento.
Na guarda costeira, são atribuídas responsabilidades aos jovens oficiais mais cedo que no Exército ou na Marinha, o que também agradou a Brenna.
"Dois anos após o curso, podemos estar a comandar um barco", revelou.
Brenna e todos os cadetes são substituídos sábado por um novo contingente de alunos.
A primeira grande responsabilidade dos novos cadetes será guiar e coordenar as visitas de quem quiser conhecer a vida a bordo do Eagle, até quarta-feira, entre as 10:00 e as 18:00, no cais de Santa Apolónia.