Necessário trabalho "heróico" para evitar repetição dos atentados de Madrid
O ex-comissário europeu António Vitorino defendeu hoje que a memória das 192 vítimas dos atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid exige um trabalho "heróico e quotidiano" para evitar novos actos do mesmo tipo.
Algumas horas antes de viajar para Madrid, onde decorre entre terça e sexta-feira a Cimeira Internacional sobre Democracia, Terrorismo e Segurança, Vitorino afirmou ter uma recordação "muito viva" do 11 de Março, pela sua carga "dramática e histórica".
De acordo com o ex-comissário europeu da Justiça e Assuntos Internos, "a Europa está mais preparada e sobretudo mais consciente dos riscos que corre", apesar de não existir total segurança para "excluir a possibilidade de novos atentados".
"O desafio fundamental para derrotar o terrorismo é sermos cada vez mais eficazes na prevenção de atentados, com uma análise contínua das ameaças e potenciais objectivos", defendeu.
Para tornar mais eficiente a luta contra o terrorismo, António Vitorino considera ser necessário aumentar a confiança mútua entre forças e serviços de segurança dos Estados membros da União Europeia, para "trocar informação permanentemente e em tempo real".
Na opinião do ex-comissário, a Europa aprendeu muito sobre como funciona uma célula fundamentalista com a investigação feita pelas forças de segurança espanholas, que classificou como "fonte de importantes ensinamentos".
Segundo Vitorino, para eliminar possíveis reticências na troca de informação entre serviços secretos dos diversos países, "há que alterar o modelo cultural e o método de trabalho".
Até agora, realizavam-se apenas trocas bilaterais, mas o terrorismo global exige um plano multilateral, apesar "de a dificuldade residir em garantir que a informação circule entre vários actores sem prejudicar a sua fiabilidade e a segurança das fontes", sustentou.
Outra área fundamental em que é necessário actuar, de acordo com o ex-comissário europeu, é a relativa ao financiamento do terrorismo, impondo-se "adoptar medidas à escala global contra as fontes que alimentam as redes terroristas".
O terceiro campo é o da acção policial, para fazer comparecer os autores de atentados perante a Justiça, que "deve castigá-los exemplarmente, em conformidade com as regras do Estado de direito democrático".
Vitorino advogou que não se deve "subestimar" a ameaça terrorista, que é "flexível, tem muita imaginação e objectivos que escolhe de forma muito descentralizada".
Nesse sentido, considerou fundamentais os progressos na cooperação da União Europeia com alguns países do Mediterrâneo e do Golfo Pérsico, bem como a colaboração com "elementos moderados das comunidades muçulmanas que vivem na UE".
Na sua opinião, a Cimeira de Madrid tem uma dupla vertente: uma "dimensão simbólica", de afirmação da vontade internacional de lutar contra o terrorismo, e uma outra que consiste em criar uma declaração de princípios, a "Agenda de Madrid, que contenha recomendações práticas e um compromisso político de acção".
Sobre a cooperação antiterrorista luso-espanhola, António Vitorino assinalou que "o novo governo socialista vai continuar a colaboração estreita" com as autoridades espanholas e sugeriu que aumentará a dos serviços de informação, "para evitar que o território de ambos os países sirva para preparar um atentado contra o vizinho".
Para tal, considerou positiva a criação de equipas de investigação conjunta dos dois países ibéricos, como Espanha tem com França.
Após os atentados de Madrid, Portugal tomou consciência - explicou - de que pode ser um alvo terrorista, mas falta ainda às autoridades melhorarem a segurança de "instalações críticas para a vida dos cidadãos, como as de abastecimento de água e de electricidade" e os sistemas informáticos e de comunicação.
O Clube de Madrid, composto por 55 ex-chefes de Estado e de governo e liderado pelo ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, convocou para esta semana na capital espanhola uma reunião para reflectir sobre a ameaça terrorista.
Do referido clube fazem parte, além de António Vitorino, os ex- primeiros-ministros portugueses Aníbal Cavaco Silva (PSD) e António Guterres (PS), presidente da Internacional Socialista, que anunciaram já a sua presença em Madrid.
Na quinta-feira, deslocar-se-á também a Madrid o presidente português, Jorge Sampaio, para participar nas cerimónias que assinalam o primeiro aniversário dos atentados de 11 de Março.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, deverá apresentar uma estratégia internacional de combate ao terrorismo na reunião, de quatro dias, que contará com a presença de 20 chefes de Estado e de governo, ex-titulares desses cargos, representantes governamentais de mais de 25 países, especialistas em terrorismo e segurança e delegados de instituições e organizações internacionais.