Negar a gravidez para evitar o sofrimento de ser mãe
A angústia de ser mãe pode levar uma mulher a negar a sua gravidez, ao ponto de ser confrontada pelos médicos com o seu estado quando entra nas urgências de um hospital em pleno trabalho de parto.
O fenómeno, de origem psicológica, é raro e, segundo especialistas ouvidos pela Agência Lusa, acontece quando a negação é usada inconscientemente pela mul her como mecanismo de defesa contra o sofrimento, medo de estar grávida ou de se r mãe devido a motivos que continuam a ser um mistério.
Nestes casos, os vulgares sinais de gravidez são atribuídos a outras causa s - o crescimento da barriga, ainda que pouco proeminente, é um "inchaço" provoc ado por descontrolo hormonal, o aumento de peso deve-se a um apetite ocasional, a sonolência é apenas cansaço.
Já a falta de menstruação é encarada como "normal" porque "sempre foi irre gular", adianta Mónica Fernandes, psicóloga da Maternidade Júlio Dinis, no Porto .
"A sensibilidade nestas mulheres é diminuta, sentem pouco os movimentos do bebé. Normalmente têm atrasos uterinos", acrescenta, por sua vez, Rosa Zulmira, obstetra e ginecologista do Hospital de Santo António, também no Porto.
Os médicos diagnosticam tardiamente a gravidez quando a mulher vai às cons ultas queixando-se de outros sintomas e, no limite, quando aparece nas urgências hospitalares já com contracções, "disfarçadas" de dores de barriga.
O bebé, quase sempre, é assumido mas, noutras circunstâncias, é entregue p ara adopção.
"A casuística é muito pequena para se fazer um retrato robô" das mulheres neste tipo de situações, ressalva Cristina Canavarro, responsável pelo Serviço d e Acompanhamento Psicológico da Maternidade Daniel de Matos, integrada nos Hospi tais da Universidade de Coimbra (HUC).
A psicóloga conta que, em dez anos de consultas, apareceram apenas seis ca sos de negação de gravidez.
Cristina Canavarro recorda-se especialmente de dois, envolvendo estudantes universitárias que deram entrada na urgência dos HUC em trabalho de parto mas q ueixando-se de dores de barriga: uma tinha comido em casa, momentos antes, um ca ldo de arroz feito pela mãe para acalmar as falsas cólicas, a outra ia dando à l uz na casa de banho.
Para a psicóloga, a negação da gravidez poderá estar associada ao "sofrime nto, medo" de a mulher "não ser capaz de lidar com a vida, com os outros": pais, companheiro ou bebé.
"Por qualquer motivo, o filho não tem espaço na sua vida", afirma.
A especialista, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, explica que a negação da gravidez "é um mecanismo de defesa muito forte, de evitamento", em que há "uma distorção inconsciente da in formação que se tem do próprio organismo", capaz de convencer familiares e proge nitor.
"Não podemos falar de um desconhecimento do corpo", adverte, referindo-se a "uma sincronia entre os mecanismos psicológicos e fisiológicos", ao ponto de " a barriga e o peito não crescerem tanto" porque as mulheres não desejam nem sent em que estão grávidas, usam calças e cintos apertados e camisolas largas.
"Sentem-se mais inchadas porque dizem que estão a comer mais um bocadinho ou têm um descontrolo hormonal por causa da pílula e depois até fazem exercício físico e controlo alimentar", adianta.
Apesar de serem gravidezes não vigiadas, os bebés nascem saudáveis, embora com menos peso do que é normal - pouco mais de dois quilos.
Cristina Canavarro ressalva que, não obstante os motivos da negação da gra videz serem pouco claros, "as relações instáveis, perturbadas, rígidas com o com panheiro ou com os pais, ou que não são aprovadas socialmente" podem ter sido um "factor determinante" nos casos ocorridos nos HUC, sobretudo entre jovens que e stavam grávidas pela primeira vez.
A estas possíveis causas da negação da gravidez, Mónica Fernandes, psicólo ga na Maternidade Júlio Dinis, no Porto, acrescenta a "violência familiar, domés tica" e os abusos sexuais.
"A negação está sempre associada a uma situação traumática. A angústia é t ão grande que a mulher nega a gravidez", esclarece, sublinhando que surgem, em m édia, na maternidade dois a três casos anuais, sendo que, por vezes, as mulheres aparecem com gravidezes diagnosticadas dois a três dias antes do parto e depois entregam o filho para adopção.
Para Maria de Jesus Correia, uma das responsáveis do Departamento de Psico logia da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, a negação da gravidez acaba po r ser "um mecanismo protector para evitar um grande sofrimento pessoal", compará vel ao da negação de uma doença grave ou da morte de um ente querido.
Mas, na prática, "não funciona", uma vez que a mulher, "mais cedo ou mais tarde, tem de assumir a criança e com um sofrimento enorme", defende.
O choque é grande quando a mulher é confrontada, repentinamente, pelos méd icos com a notícia de que está grávida ou quando vê o bebé depois de dar à luz.
"Mas depois adapta-se", sustenta, todavia, Rita Luz, psicóloga do Serviço de Obstetrícia do Hospital Garcia de Orta, em Almada.
A especialista salienta que, em regra, "não há rejeição do bebé depois do parto".
"É como se ele tivesse sempre existido e as mães auto-culpabilizam-se por o terem negado", defende.
Rita Luz conta que, em quatro anos de serviço, passaram-lhe pelas mãos ape nas quatro a seis casos de negação da gravidez, sobretudo com mulheres que já ti nham filhos.
"O que é mais bizarro, já que têm a noção do corpo `grávido`. Mas elas diz iam que não sentiam nada", relata, acrescentando que foram casos de gravidez não vigiada, em que as mulheres chegaram à urgência em trabalho de parto queixando- se de "cólicas muito fortes".
Em Portugal não existem estudos sobre a negação da gravidez, que se distin gue da ocultação ou rejeição por estas serem actos conscientes. Rita Luz admite, no entanto, que a pressão social exercida sobre as mulher es para que assumam o papel da maternidade, a "falta de suporte conjugal" ou as carências familiares possam levar a mulher a "negar, adiar a realidade da gravid ez porque acha que não vai ser capaz de lidar com ela, ter condições para criar o bebé".
"Ser mãe, por muito que seja romântico, é uma tarefa de autonomização e re sponsabilização enorme", justifica.