Negócios em pirâmide duplicam e lesam milhares de “investidores” em Portugal
Os esquemas para ganhar dinheiro fácil, os chamados negócios em pirâmide, continuam a proliferar em Portugal, tendo o número de casos duplicado em relação a 2014. Primeiro foi o colapso da Telexfree e da GetEasy. Agora ganha destaque o Viral Angels, um clube privado de investimento com sede, supostamente, em Estocolmo e sócios em mais de 130 países. A Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) alertou recentemente os investidores sobre a atividade ilegal desta entidade. O Banco de Portugal (BdP) confirmou ao site da RTP que o número de esquemas deste tipo aumentou significativamente. Negócios na mira das autoridades, mas que continuam fora de controlo.
“Os vários sócios vão receber, semanalmente, ações dessas empresas e aí é que está a jogada de tudo. Vamos receber ações de empresas que estão com a cotação em baixo e, a partir do momento que entrar na bolsa, nós vamos ganhar dinheiro nessa transição porque a empresa vai ganhar X. Entrando na bolsa vale dois X, ou seja, valoriza o valor das ações dessas empresas. Então é nisso que, nós sócios, vamos ganhar dinheiro”, diz Tailan Grein na mesma apresentação.
Viral Angels deixou de pagar
A RTP sabe que o Viral Angels deixou de pagar e, em alguns casos, chegou a inventar taxas para obter ainda mais dinheiro. Por isso, muitas das “vítimas” deixaram de pagar a mensalidade. Muitas pessoas hipotecaram casas, pediram empréstimos ao banco, venderam carros e outros bens materiais.
Este “negócio” usa o conceito de comprar ações na Bolsa de Valores, para iludir os seus membros, sobre a verdadeira utilização do dinheiro. A maioria das empresas não existe ou a sua atividade é praticamente inexistente.
Na mira das autoridades
Apesar de estarem na mira das autoridades, normalmente são os antigos responsáveis por outros negócios que colapsaram que montam novas empresas e voltam a prometer lucros astronómicos, reunindo milhares de seguidores.
O site da RTP contactou diversas pessoas lesadas pelo Viral Angels, mas por enquanto preferiram manter o silêncio, algumas ainda na esperança de reaver os milhares de euros “investidos”.
Num dos muitos grupos fechados do Facebook, usados para promover este negócio, tivemos oportunidade de ler mensagens de uma das angariadoras de investidores, a referir que em 2015 já não deveriam existir mais problemas e, logo de seguida, os comentários dos membros insatisfeitos, a denunciar o próprio golpe.
Para tentar aliciar novas vítimas para este esquema, o Viral Angels usa o slogan “If You’re Not Inside You’re Outside”, ou seja, “Se não está por dentro, está por fora”.
"Entidade não se encontra legalmente habilitada"
A CMVM alertou esta semana para o facto de o Viral Angels não estar autorizado a desenvolver atividades de intermediação financeira, com diversos domínios que tem registados na Internet (https://viralangels.com/; http://www.viral-angels.net; http://www.viralangels.pt/vawp/; http://www.viral-angels.pt/; http://pt.viralangels.pt/; http://black-angels.net/; http://viralangels.net; http://zc.viralangels.pt ou http://va-clubeprivado.blogspot.pt/).
A CMVM advertiu ainda que “aquela entidade não se encontra legalmente habilitada para realizar publicidade ou prospeção de clientes, dirigidas à celebração de contratos de intermediação financeira”.
“Todas as pessoas e entidades que tiverem estabelecido qualquer relação comercial com esta entidade, poderão contactar a CMVM através do número 800 205 339 (linha verde), ou por e-mail para cmvm@cmvm.pt”, alerta o regulador.
Na Internet circulam também diversos blogs de alerta para negócios fraudulentos. O site da RTP foi falar com um desses bloggers, que tem inclusivamente alertado a CMVM, o BdP e outras autoridades. Chegou a obter algumas respostas e as suas denúncias vieram a confirmar-se.
“Tenho gosto pela área financeira e invisto na bolsa e noutros mercados financeiros. Por essa razão é que sabia logo de antemão que era uma fraude, que ia rebentar e que as empresas que, supostamente, eram aquelas que iam entrar na bolsa e que as pessoas estavam a investir, era tudo uma fachada ou então o volume de negócios não justificava entrar em bolsa”, referiu o blogger.
“Comecei mais para dar dicas, mas depois comecei a colocar alertas. Tive muitas pessoas a perguntar se era credível e se valia a pena ou não. Costumo publicar alertas quando são fraudes, ou então para terem cuidado e não investirem”.
Este blogger, que é também engenheiro informático, não quer dar a cara para a reportagem da RTP, pelo facto de não querer ser identificado e já ter sido ameaçado diversas vezes.
Banco de Portugal abriu 67 processos
Não são avançados nomes de quais as entidades que têm vindo a ser denunciadas, mas o BdP salienta que o número de casos aumentou para o dobro, relativamente ao ano 2014. Foram abertos 67 processos de averiguação do exercício de atividade não autorizada e encerrados 58, revela o Banco de Portugal.
“No final de dezembro, estavam em curso 152 processos. O Banco colaborou com as autoridades judiciárias e policiais, participando em diligências de investigação (off-site e on-site) e procedendo à troca de informações de interesse comum”, pode ler-se no relatório de atividade e contas de 2014 do Banco de Portugal.
“Em 2014, o Banco desenvolveu, neste âmbito, múltiplas diligências de averiguação off-site, 11 ações inspetivas nas instalações das entidades averiguadas (para verificação in loco da eventual atividade ilícita e recolha de prova) e emitiu cinco alertas dirigidos ao público”, indica o mesmo documento.
"Verdadeiros esquemas piramidais"
“Além da averiguação dos esquemas piramidais financeiros “puros”, existem, muitas vezes, situações que, embora formalmente pareçam constituir atividade não autorizada de intermediação financeira, materialmente acabam por revelar-se como verdadeiros esquemas piramidais”, disse à RTP o Banco de Portugal, em informação escrita.
O gabinete do governador Carlos Costa refere ainda que é frequente surgirem no mercado entidades não autorizadas (pessoas coletivas e, até, singulares) que se propõem receber fundos do público, em troca de retornos de valores elevados, com justificação na sua aplicação em alegados “produtos financeiros de alta rentabilidade”.
“A análise do contexto operativo destas entidades permite, muitas vezes, concluir que o pagamento dos retornos prometidos ou o reembolso dos fundos entregues pelos clientes resulta, tão somente ou em grande parte, da entrada de novos fundos, aportados quer por novos clientes, quer como reforço dos montantes inicialmente entregues por clientes antigos”, refere a nota.
Promessas são autêntico bluff, diz PJ
O BdP deixa ainda um alerta ao público e refere que sempre que alguém tenha dúvidas quanto à legitimidade das entidades proponentes destes esquemas, deverá consultar o portal do Banco de Portugal na Internet, por forma a verificar se tais entidades estão registadas e estão habilitadas para o exercício, no país, da receção de fundos reembolsáveis.
“Eles poderão instrumentalizar, por vezes, empresas para darem algum suporte a este tipo de atividades, mas isto não são verdadeiras empresas. Isto são esquemas piramidais de investimento para angariarem o maior número de pessoas”, disse ao site da RTP Artur Vaz, Coordenador da Investigação Criminal, da Polícia Judiciária (PJ). Entrevista com Artur Vaz, Coordenador da Investigação Criminal PJ
Médicos, advogados e empresários lesados com "negócio"
A PJ tem acompanhado este tipo de situações, mas não revelou à reportagem da RTP o nome das empresas, salientando apenas que é um “negócio” transversal que atinge várias pessoas de diversas profissões, como médicos, advogados ou empresários. “São falsas promessas de lucro que são um autêntico bluff”, disse Artur Vaz.
A RTP contactou via Facebook um dos parceiros do Viral Angels em Portugal, João de Saldanha, que também podemos ver em diversas apresentações no YouTube, como esta:
João Saldanha não quis fazer qualquer comentário e apenas respondeu: “Para falar sobre o Viral Angels terá que os contactar diretamente. Apenas a sede do Viral Angels está autorizada a comunicar com os media”.
E contactámos, posteriormente, a sede do Viral Angels, supostamente em Estocolmo, para falar com o presidente, Anthony Norman, mas a telefonista que recebeu a chamada solicitou que enviássemos um email. Até ao momento, não obtivemos qualquer tipo de resposta.