No Douro selvagem construiu-se a "cidade ideal"
Há mais de 50 anos o jovem arquitecto Archer de Carvalho foi enviado ao Douro Internacional para projectar uma barragem que marca a história da arquitectura moderna.
Conhecia Trás-os-Montes da caça, mas jamais imaginou o que o esperava quando responsáveis da antiga Hidroeléctrica do Douro (Hidouro) lhe disseram: "vai para lá uma semana, senta-se nas pedras e medita".
Quando chegou a Picote e desceu ao rio Douro apenas encontrou imponentes fragas e a natureza no seu estado mais selvagem.
Archer de Carvalho apercebeu-se também da grandiosidade do sítio, da variedade da vegetação e do colorido das escarpas que encaixam o rio dividido entre Portugal e Espanha e acabram por inspirar o que classifica como "a obra da sua vida".
Foi a partir desta imagem da natureza crua que Archer de Carvalho e mais dois colegas arquitectos, Rogério Ramos e Nunes de Almeida, projectaram a primeira barragem do rio Douro (Picote) e uma pequena "cidade ideal" na sua ilharga.
Integradas no Parque Natural do Douro Internacional, o IPPAR está prestes a classificar a barragem e a aldeia como "conjunto de interesse público", "um orgulho imenso", para Archer de Carvalho.
O reconhecimento chega quando o arquitecto está próximo dos 80 anos e será partilhado com apenas com Nunes de Almeida, já que Rogério Ramos morreu ainda novo.
O arquitecto fala de Picote com o entusiasmo da juventude, do momento em que chegou a uma aldeia onde faltava tudo, o que aliás acontecia em toda a região transmontana.
Archer de Carvalho ficou numa casa velha onde dispunha de um jarro de água gelada para se lavar.
Era, por sso, necessário criar condições onde não havia nada e assim começou a ser desenhada aquela que é hoje a aldeia do Barrocal do Douro.
Começaram por construir uma pousada provisória e uma estrada, já que "os carros só chegavam até Picote" e era necessário andar mais "cinco ou seis quilómetros por monte" até ao rio Douro.
"Viver cinco anos ali em baixo", junto ao estaleiro da barragem "era desagradável", pelo que decidiram explorar o morro que se erguia três quilómetros acima do rio.
O único condicionalismo que tiveram foi "a segregação social que existia na época", o que levou à construção de um núcleo habitacional separado por classes.
No topo do morro foi construída a pousada para os quadros da empresa, mais abaixo um bairro de moradias para os engenheiros, seguido de um outro para os funcionários especializados e ainda um terceiro para o pessoal não qualificado, conhecido como bairro verde, a cor dos pré-fabricados.
"Mas não faltava nada, não tinha inveja nenhuma das outras (casas), até aquecimento tinha em todas as divisões", revelou à Lusa José Pereira, antigo cozinheiro da pousada, que "emigrou" do Porto em 1958, mandou vir depois a mulher e os três filhos e permanece no Barrocal do Douro, mesmo depois de já reformado.
Condições como as que ali encontrou, há meio século, diz que "é difícil obter mesmo hoje: uma casa com três quartos sem ter que pagar renda ou luz".
Os habitantes daqauela "cidade ideal" foram dos primeiros, no Nordeste Transmontano, a ter água canalizada e tratada, através de uma estação de tratamento que ainda hoje serve parte do concelho de Miranda do Douro.
Há 50 anos tinham também cinema num cineteatro com salão de festas, piscina, e um centro comercial com padaria, peixaria, talho, mercearia, barbearia, e estação dos correios.
O "requinte" foi presença constante nesta "cidade" fundada do nada, que ficou completa com um refeitório, escola, capela e um posto médico, com especialidades ainda hoje na lista de carências da região, nomeadamente estomatologia ou raio X.
Conceição Domingues é quadro da EDP há 25 anos e começou a sua carreira de engenheira neste "novo mundo", que cortou por completo com a ruralidade e o atraso que povoava aquela parte do interior do país.
"Vivi aqui os melhores da minha vida", disse.
A engenheira, que conhece bem os empreendimentos hidroeléctricos do país, garante que "as barragens Douro Internacional são as mais bonitas".
Nenhum pormenor foi esquecido mesmo na zona da produção, com os equipamentos "encaixados" na paisagem e nas entranhas da montanha, num "diálogo" raro entre a arquitectura e engenharia.
Na zona habitacional não há muros ou vedações.
"Os jardins são o monte", salienta Archer de Carvalho.
Alguns registos asseguram que chegaram a viver ali 6500 pessoas no tempo áureo da construção da barragem, que ganhou o nome da velha aldeia de Picote.
Quando Conceição Domingues ali chegou, a escola de Barrocal do Douro tinha duas salas cheias de crianças.
Em 1991 foi a debandada com a centralização do telecomando das barragens do Douro, na Régua.
Os funcionários foram transferidos, as zonas habitacionais vendidas e alguns equipamentos entregues à câmara local, reduzindo o Barrocal a 60 pessoas.
A EDP ficou apenas com a pousada, piscina, campo de ténis e o bairro dos engenheiros, edifícios com marcas de abandono, mas de fazerem inveja a qualquer moradia ou empreendimento modernos.
Uma associação local de jovens, a FRAUGA, está a tentar convencer a EDP a abrir, pelo menos, a piscina à população.
A escola da aldeia é agora um café, onde um grupo de habitantes afirmou à Lusa que "ainda vão afastar mais gente com isto da classificação".
Julieta Pereira até está "contente" com a distinção, mas considera as limitações da classificação "exageradas". A razão maior do seu desagrado foi ter visto o projecto de uma moradia limitado a 120 metros quadrados, quando tinha três mil de terreno.