No Seixal crianças aprendem matemática conhecendo património corticeiro
Medir a copa de um sobreiro ou contar rolhas numa antiga fábrica de cortiça pode ser um método simples de aprender matemática no Seixal. Esta é, pelo menos, a ideia da iniciativa camarária "Descobertas Matemáticas na Mundet".
Criado há cerca de três anos pelo Ecomuseu Municipal do Seixal, com o apoio de professores de matemática, o "atelier" visa cativar o interesse das crianças pela disciplina e sensibilizá-las para a preservação do património histórico industrial do concelho.
Durante uma visita à mata e às antigas caldeiras de vapor Babcock da fábrica de cortiça Mundet, os mais novos são convidados a aplicar os seus conhecimentos de matemática executando pequenos exercícios, como calcular o diâmetro do tronco de um sobreiro, descrever formas geométricas de produtos corticeiros ou ordenar, em "puzzles", as fases de transformação da cortiça.
Estimar quantas rolhas cabem num cesto ou fazer operações de adição a partir de valores registados nas tabelas de turnos de ex- operários são outras das actividades propostas.
Direccionada para as escolas básicas do concelho, embora recentemente também aberta a grupos familiares, a oficina "Descobertas Matemáticas na Mundet" já teve a participação de mais de 500 crianças.
São 11:05. Uma turma de 16 alunos da Escola Básica 1 da Quinta da Courela, em Paio Pires, prepara-se para os exercícios, depois de ver uma exposição documental e um filme sobre a laboração da antiga fábrica, hoje património municipal do Seixal.
Excitadas, as crianças, de oito e nove anos, acotovelam-se quando a monitora do Ecomuseu as chama. Depois, separam-se em pequenos grupos.
Vítor, Fábio e Diogo encaminham-se para a mata em busca de um sobreiro. Objectivo: medir o diâmetro do tronco da árvore.
Fábio coça o queixo quando lhe pedem para marcar no sobreiro, com uma fita métrica, um metro e trinta de altura a contar do solo.
Diogo atrapalha-se com as indicações que lhe são dadas e começa a calcular o diâmetro de dois sobreiros em vez de um.
Vítor engana-se a preencher a ficha de exercícios.
Mas, no final, entre hesitações, o trio acaba por cumprir a tarefa proposta com êxito.
Em passo apressado, prontos para um novo "quebra-cabeças", Vítor e Diogo comentam, em coro, que tiveram boas notas a matemática e que gostam mais de fazer contas na Mundet do que na escola.
Maria Rosa Charneca, professora da Escola Básica da Courela que acompanha pela primeira vez alunos a uma iniciativa deste género, espera que as crianças se interessem mais pela disciplina e pela história local.
"Tenho alguns alunos bons a matemática. A ideia é entusiasmar os mais fracos, aqueles que não aguentam a teoria, que têm pouco poder de abstracção", afirma à Agência Lusa, vincando que "é mais fácil" as crianças "chegarem à Internet do que resolverem um problema simples".
"As crianças, hoje em dia, têm outros interesses, são desviadas para outras coisas", refere a docente, defendendo que os alunos também "precisam de sentir o interesse dos pais" pelas actividades curriculares para "se sentirem motivados".
Alargada a pais, avós e netos, a oficina "Descobertas Matemáticas na Mundet" pretende, neste contexto, "envolver os afectos" familiares "na aprendizagem da matemática e no reconhecimento e valorização do património", segundo a vereadora da Cultura e Educação da Câmara do Seixal, Corália Loureiro.
A autarca, que tem experiência na área do ensino da matemática, crê que as crianças que participam na iniciativa "têm mais interesse" pela disciplina e "começam a encará-la de forma diferente", numa perspectiva de "algo que é útil para o dia-a-dia".
"Agora, se têm mais aproveitamento por terem frequentado o +atelier+... é difícil de provar. Para uns alunos, o +atelier+ pode ser só uma oportunidade de saída da escola", ressalva Pedro Esteves, professor de matemática que colabora no projecto.
Andreia não tem dúvidas de que "é mais divertido" fazer exercícios de matemática com os amigos na antiga corticeira Mundet do que na sala de aula.
Mas avisa, depois de terminar uma conta de somar: "Gosto mais de ler, saio à minha mãe".