Norte de Portugal e Galiza têm 150 mil deficientes motores, 70% sem emprego
O Norte de Portugal e a Galiza têm perto de 150 mil pessoas com deficiência motora, cerca de 70 por cento das quais não integradas no mercado de trabalho, apontam dados hoje divulgados.
Os números foram avançados no decorrer das I Jornadas Galiza - Norte de Portugal sobre "Deficiência Motora e Inclusão Social", que decorreram em Caminha, uma organização do Centro de Reabilitação Profissional de Gaia (CRPG) e da Condeferación Galega de Minusválidos.
Segundo Jerónimo Sousa, presidente do CRPG, a inversão daquela situação passa por uma aposta forte nas acessibilidades, nomeadamente em transportes e edifícios públicos, que permita às pessoas com deficiência motora "circularem livremente" e, assim, terem igualdade de oportunidades.
"Existe desde 1997 uma legislação que é óptima e que dava até 2004 para os edifícios públicos disporem de acessibilidade para toda a gente, mas o que se verifica é que uma boa parte deles ainda não se adaptou. É necessário que se aprenda a cumprir a lei", salientou.
Jerónimo Sousa apontou, concretamente, o caso da Casa da Música do Porto, um edifício recentemente inaugurado e que - disse - "é tido como uma referência nacional, mas não é acessível a pessoas com deficiência".
O responsável da CRPG reclamou também igualdade de oportunidades no acesso à formação e à educação, "sem o que a integração profissional da pessoa com deficiência motora ficará ainda mais difícil".
"Além disso, é preciso educar os empresários, para que olhem para os cidadãos com deficiência motora como pessoas iguais às outras, e não com medo, como ainda acontece na esmagadora maioria dos casos", acrescentou.
A mesma opinião tem Joaquim Martins, de 35 anos, que desde os 27 está numa cadeira de rodas devido a um acidente de viação.
"Antes do acidente, trabalhava numa empresa, colaborava num órgão de comunicação social e dava aulas de musculação. Hoje, além de continuar ligado à comunicação social, frequento no CRPG um curso de formação de práticas administrativas, que acredito me poderá reabrir as portas do mundo do trabalho", disse.
Para Joaquim Martins, o problema fundamental que se coloca a um cidadão com deficiência motora que queira ingressar no mundo do trabalho é que os empresários dão muito mais valor à imagem do que propriamente à capacidade do candidato ao emprego.
Quanto ao muito que ainda há por fazer em Portugal em termos de acessibilidades, Joaquim Martins exemplificou com um episódio que viveu na Repartição de Finanças de Vale de Cambra, um edifício "muito antigo e com uma escadaria íngreme".
"Para entregar a declaração do IRS, foi necessário virem 10 funcionários ajudarem-me", referiu.
Segundo o presidente da Confederación Galega de Minusválidos, Domingos Dosil, a realidade na Galiza "é em tudo idêntica" à do Norte de Portugal, já que também naquela região autónoma se criam muitas leis para dar igualdade de oportunidades às pessoas com deficiência, "mas ninguém trata de as fazer cumprir".
No entanto, e conforme foi divulgado nestas jornadas, está já a ser desenvolvido um programa, liderado pela Junta da Galiza, cujo principal objectivo é criar novos serviços que facilitem a inclusão social das pessoas com deficiência motora tanto daquela região espanhola como do Norte de Portugal.