O "Boi do Povo" volta a atrair milhares sábado em Montalegre

Durante séculos as aldeias de Montalegre criaram o boi do povo com funções de reprodução e de representação da comunidade nas ancestrais chegas.

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Entretanto, os bois comunitários foram sendo substituídos pela inseminação artificial, existindo actualmente apenas três.

Em Covelães, concelho de Montalegre, três produtores juntaram-se e compraram um boi, o "Bonito", que é tratado e alimentado de forma comunitária.

Um dos tratadores desde "boi do povo", José Branco, disse à agência Lusa que o "Bonito", agora com três anos e cerca de 700 quilos, fica uma semana entregue a cada lavrador.

"Cuidamos dele de domingo a domingo. Em cada semana um de nós tem que o alimentar e limpar", explicou.

José Branco referiu que optaram por criar este boi de forma comunitária porque diz ser "muito caro" manter este animal que tem que "ser alimentado três vezes por dia" e "tem apenas como função a reprodução".

Só que, os dias do "Bonito" em Covelães podem estar contados, pois, segundo o produtor, nos últimos tempos ele não tem "cumprido as suas funções" e por isso mesmo diz que teve que recorrer à inseminação artificial.

Nos últimos anos muitos produtores têm optado pela inseminação artificial das suas vacas, o que implica custos mais reduzidos

Fernando Moura, um dos responsáveis pela Associação Etnográfica "O Boi do Povo", criada em 1999, disse à Lusa que, em detrimento da raça barrosã, muitos produtores têm também optado por outras espécies bovinas, de crescimento mais rápido.

O responsável salientou mesmo que a sua associação nasceu para homenagear o "boi do povo" e que, para além de promover a realização das chegas de bois, pretende ainda incentivar a raça barrosã que diz estar "em vias de extinção".

Mas manter estes bois não é fácil e Fernando Moura refere que chega a gastar três euros por dia na alimentação do "Moreno", o boi que possui actualmente e que vai ser um dos 16 protagonistas do campeonato de chegas de bois que tem início sábado, em Montalegre, e que vai decorrer até Agosto.

Actualmente a maior parte dos bois existentes no Barroso pertencem a privados, existindo apenas, segundo disse o antropólogo João Sardinha, três bois comunitários nesta região.

O responsável colabora há três anos com o Ecomuseu do Barroso para quem está a preparar um documentário sobre o "Boi do Povo".

E se, para João Sardinha, foi a emigração em massa nos meados do século XX que esvaziou as aldeias do Barroso e levaram ao fim do boi do povo, são hoje esses emigrantes que mantêm as chegas quando regressam à terra natal, chegando a pagar "por uma viagem às origens".

As raízes do "Boi do Povo" e das chegas não estão perfeitamente definidas mas, segundo o antropólogo, já no paleolítico se acreditava que os bois eram "animais de combate, fortemente armados e que se envolviam em lutas ferozes".

O responsável refere que, nas antigas tumbas egípcias ou os grandes escritores clássicos romanos, se fizeram referência aos rituais de lutas entre touros, animal que representava a "fertilidade e a masculinidade".

João Sardinha salientou uma "relação simbólica" entre o boi e todas as sociedades pastoris e agrícolas, como é a barrosã.

"O boi era um bem comunitário e por isso os encargos, direitos e deveres eram distribuídos por todos os que possuíam vacas", frisou.

Mas, para além da função reprodutiva, o boi tinha ainda a importante tarefa de representar as aldeias nas chegas.

"Antes de cada confronto, iniciava-se um ritual com o reforço da alimentação do animal para ganhar peso e massa muscular que lhe permitisse ter uma melhor prestação na luta", salientou.

Acrescentou que, nestes rituais, se juntava o religioso ao profano, pois para além das rezas das mulheres ao santo, o boi ainda era introduzido na capela ou levado à bruxa para garantir a sua vitória.

"As populações afirmavam a sua identidade através do confronto entre os animais, das suas vitórias ou derrotas", explicou.

E quando o seu boi ganhava, as comunidades faziam festas que chegavam a durar semanas, abanavam-se lenços à passagem do vencedor e as mulheres até chegavam a pendurar os seus saiotes ou fios de ouro nos cornos dos animais.

Se o boi perdia o combate, este era imediatamente vendido.

"E quando a chega não absorvia a violência entre os homens, estes chegavam mesmo a confrontar-se directamente", referiu.

O antropólogo referiu que ainda hoje na Coreia se realizam estes combates em estádios onde cabem milhares de pessoas e até há um canal televisivo especializado nestas lutas entre animais.

João Sardinha diz que as chegas "evoluíram" na forma como são realizadas actualmente e que os interesses que nelas se articulam também mudaram.

"Hoje os confrontos entre os bois realizam-se num campo delimitado, até têm direito a um relatador e os bois pertencem a privados", frisou.

Acrescentando que antigamente as comunidades "eram intervenientes activas" nas chegas e agora as pessoas "são apenas espectadores passivos".

"O ritual transformou-se num espectáculo", concluiu.

Fernando Moura diz que, actualmente, o boi vencedor continua a ser motivo de grande orgulho para os seus proprietários e a ser preferido para a reprodução.

Salienta mesmo que a paixão dos barrosões pelas chegas é "tão grande" que mesmo os partidos políticos quando realizam algum comício ou encontro na região é promovida uma chega para "atrair" pessoas ao evento.

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