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"O comboio faz falta". Tua ficou com barragem mas perdeu ferrovia

"O comboio faz falta". Tua ficou com barragem mas perdeu ferrovia

Uma sucessão de acidentes graves levou ao encerramento definitivo da Linha do Tua em agosto de 2008. Mesmo deixando debaixo de água 16 quilómetros de linha centenária, a construção da Barragem de Foz Tua abriu a possibilidade de voltarem a circular comboios no troço Brunheda - Mirandela. Esta contrapartida não se concretizou desde então. No dia em que se assinalam 170 anos da ferrovia em Portugal, a RTP Antena 1 recorda o caso de uma linha que se perdeu no país.

Afonso de Sousa - RTP Antena 1 / Adicionar como fonte informativa
Foto: João Chaves Marques - RTP

Maria Piedade e Maria da Glória estão à espera duma boleia na antiga paragem do autocarro bem no centro da aldeia da Ribeirinha. Vão para Vila Flor, sede de concelho, a 12 quilómetros para umas atividades com outros idosos do município. "É a única coisa que a gente tem, estas saídinhas", comenta Piedade, constatando que "já estamos sozinhas" e que, se não saírem, "morre aqui de pasmo".

O único transporte que ali vai de 15 em 15 dias é um autocarro da câmara, nas feiras mensais. Caso contrário, "temos de pagar um táxi para ir a Vila Flor às compras", diz Piedade, que acrescenta: "Ainda outro dia fui a uma consulta em Vila Flor e tive de pagar 24 euros de táxi".

Os olhos destas duas senhoras de 74 e 75 anos brilham quando o comboio vem à conversa. "O comboio faz muita falta", afirma Glória, recordando as idas a Mirandela para fazer compras, mas "agora não temos nada". Já Piedade lembra que o filho usava o comboio, às 7h30, para ir às aulas em Mirandela.
Afonso de Sousa - RTP Antena 1

A Linha do Tua já ligou a Foz do Tua a Bragança, ao longo de mais de 130 quilómetros. O serviço foi sendo encerrado por troço desde 1991, até ao seu fecho em 2008.

Mesmo deixando debaixo de água 16 quilómetros de linha centenária, a construção da Barragem de Foz Tua abriu a possibilidade de voltarem a circular na Linha não um, mas dois comboios, entre o troço Brunheda – Mirandela. Um dos comboios faria o serviço diário e outro seria turístico. Foi essa a contrapartida do Governo, a mais visível e a mais desejada, do projeto hidroelétrico. A barragem começou a produzir energia em 2017, mas nenhum comboio voltou à linha entretanto.

O voltar do comboio à linha da Brunheda até Mirandela faz parte da declaração de impacto Ambiental (DIA) que define as contrapartidas da barragem que banha cinco municípios. O presidente da Câmara de Vila Flor, Pedro Lima, diz que a declaração para a barragem ter começado a funcionar em 2017 não deveria ter sido dada.

O Governo "nunca deveria ter dado sem estar cumprida a DIA na íntegra", considera. O mesmo é dizer que a barragem só deveria ter começado a funcionar quando o comboio estivesse na linha. Pedro Lima espera que o executivo "faça cumprir" essa obrigação, num comboio que já leva nove anos de atraso.
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