"Onde não há rapazes maus" existe a pedagogia do açoite
A Casa do Gaiato, instituição de reeducação de menores tutelada pela Igreja portuguesa, assume a diferença nos seus métodos pedagógicos, agora "fustigados" pela Segurança Social, e exige que a deixem ficar assim.
A instituição põe miúdos a estudar e trabalhar e embora funcione sob o lema criado pelo Padre Américo de que "não há rapazes maus", admite castigos corporais, preferindo preocupar-se mais com a eficácia do que com a alegada "perversidade" dos métodos.
Acílio Fernandes, 72 anos, actual director-geral da instituição, assume que ele próprio já passou das palavras aos actos numa altercação com um interno.
Luís, 15 anos, saxofonista numa das bandas desta instituição de reeducação de menores, foi co-protagonista do incidente: não ensaiava nem deixava os outros fazê-lo e pagou a birra com um açoite.
Em retaliação, empurrou o sacerdote católico para o solo, que ficou com uma mazela num joelho, ainda hoje notada a cada passo que dá.
"Se volta a acontecer, levas novamente! Depois, podes matar- me", avisou então o irritado padre que há 50 anos trabalha para a instituição.
Ao contar hoje este episódio à Agência Lusa, Acílio Fernandes não mostra arrependimento pelos açoites que deu e pelos que prometeu.
Nem vê nisto a admissão de maus-tratos na Casa do Gaiato, referenciados em relatórios recentes da Segurança Social.
"A isto chama-se dar educação. Outra pessoa no meu lugar faria o mesmo", afirma o sacerdote. E "quem diz o contrário, são +tecnizitos+ que não sabem do que falam", sentencia.
É de um pequeno e desarrumado escritório na quinta de Paço de Sousa que Acílio Fernandes comanda oito casas do Gaiato espalhadas por Angola, Moçambique e Portugal, responsáveis pela reeducação de 750 jovens problemáticos.
Nesta casa-mãe de Paço de Sousa há uma dezena de edifícios, onde se alojam centena e meia de adolescentes e jovens de risco.
Não precisam sair da aldeia, para a "formação pelo trabalho" nas oficinas de carpintaria, electricidade e artes gráficas, de onde sai uma das publicações mensais de maior tiragem, "O Gaiato", que imprime 70 mil exemplares.
Por entre ruas pavimentadas, ora a paralelo, ora a alcatrão, há campos cultivados, uma capela, uma biblioteca e, em extremos da quinta, dois campos de futebol e uma piscina de 25 metros - tudo numa área de 54 hectares.
Numa volta pela casa-mãe da rede assistencial fundada em 1940 pelo padre Américo Monteiro Aguiar, vêem-se aqui e ali, em tempo de descanso, miúdos de cabelos desalinhados e olhar triste, enquanto Acílio Fernandes se multiplica em esforços para "provar" que os métodos de reeeducação aplicados pela Casa do Gaiato são "os melhores".
"É a ciência que o diz", refere, apoiado na teoria do especialista em ciências da educação Ernesto Candeias Martins, que elogia a pedagogia aplicada aos jovens sob o cuidado das oito casas do Gaiato espalhadas por Angola, Moçambique e Portugal.
Num livro apresentado em Novembro passado, na presença do Presidente da República e do cardeal-patriarca de Lisboa, Candeias Martins fala de uma obra social "sujeita a dificuldades, mas que educa para as competências, para o desempenho adequado de um cidadão e de uma pessoa que se quer digna, livre e autónoma".
O livro refere mesmo que a Casa do Gaiato apresenta "respostas ousadas, muito para além dos limites da pedagogia já conhecida", para problemas com "dimensão inabitual".
Na apresentação da obra, também D. José Policarpo defendeu que as casas do Gaiato "têm o direito de serem valorizadas na sua originalidade pedagógica e institucional, (...) dificilmente enquadrável em modelos uniformes e monolíticos das instituições educativas".
Mas o responsável máximo pela Igreja portuguesa admitiu que as Casas do Gaiato "são chamadas a rever continuamente o seu projecto", e o Presidente Sampaio referiu-se às "potencialidades de inovação" da instituição.
Ainda assim, psicólogos, pedopsiquiatras ou assistentes sociais continuam ausentes das casas do Gaiato, mantendo-se ali uma aposta na ressocialização através da educação religiosa, formação profissional e "vida sadia" em quintas da instituição.
Um trabalho coordenado por padres e "maiorais" - os internos mais velhos, que inspectores da Segurança Social criticaram, aludindo a um ambiente de "isolamento, repressão e clausura", onde "abundam o trabalho, a disciplina e os castigos".
Face a estas conclusões, a Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco aconselhou esta semana as suas 252 extensões concelhias a suspenderem o envio de menores para a Casa do Gaiato, mas o director-geral da Casa do Gaiato diz-se "pouco preocupado" com estas "condenações".
Acílio Fernandes enquadra-as numa alegada estratégia do Estado para "impor" à Casa do Gaiato "métodos pedagogicamente incorrectos, esquecendo que se trata de uma instituição que não vive dos seus favores e até paga impostos".
Promete mesmo uma "resposta alicerçada", através de um estudo encomendado à Universidade Católica sobre a forma como se inseriram na sociedade antigos internos da Casa do Gaiato, e desafia o Estado a fazer o mesmo nas instituições de acolhimento que patrocina.
"A experiência acumulada no trabalho com estes rapazes permite- nos perceber que vamos ter excelentes resultados", antevê Acílio Fernandes.
Luís, o birrento saxofonista da banda, que não se esqueça entretanto do aviso do padre Acílio: se voltar a portar-se como menino birrento, arrisca novamente a pedagogia do açoite.