Onze hospitais portugueses testam tratamento inovador contra cancro cólon
Onze hospitais portugueses vão participar no maior estudo clínico na área do tratamento do cancro do cólon e do recto realizado em Portugal, por uma equipa nacional, colocando o país na vanguarda mundial deste tipo de investigação.
Com a duração de um ano, o estudo vai ser realizado pelo Grupo de Investigação do Cancro Digestivo e coordenado por Sérgio Barroso, director do Serviço de Oncologia do Hospital de Beja, e Evaristo Sanches, director do Serviço de Oncologia do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto.
Sérgio Barroso explicou hoje à Agência Lusa que se trata de um estudo de fase II, correspondente a testes em pessoas doentes.
Nesta fase, os investigadores pretendem avaliar a eficácia e a segurança (toxicidade) de uma terapêutica inovadora no tratamento de primeira linha de doentes com cancro do cólon (intestino grosso) e do recto, em estado avançado.
De acordo com o especialista, a nova estratégia de combate à doença associa a quimioterapia convencional com um novo medicamento, que "actua como um "míssil", procurando e destruindo especificamente as células tumorais/malignas".
"Neste processo, as células boas são poupadas, o que significa que os efeitos secundários são mais reduzidos", explicou.
Sérgio Barroso diz depositar uma "enorme esperança" neste novo tratamento, a confirmarem-se os dados preliminares de estudos precoces já realizados.
"São estudos que apontam para um aumento na ordem dos 50 por cento na esperança de vida dos doentes com cancro do cólon, que actualmente ronda os 21 meses", explicou.
"Trata-se de um aumento muito significativo que representa um enorme passo para a oncologia", defendeu.
Este novo tratamento permite ainda "melhorar a qualidade de vida do doente", que deixa de ser obrigado a visitas constantes ao hospital durante a terapêutica.
Uma das partes do tratamento é realizada no hospital, só no primeiro dia de tratamento, e consiste na administração dos medicamentos através de soro e da veia, sem necessidade de internar o doente.
A outra parte do tratamento é oral, o doente toma o medicamento (cápsulas) em casa durante duas semanas.
Este novo tratamento, a começar ainda este ano, vai ser testado em cerca de 45 doentes, que estão a ser seleccionados em 11 hospitais.
Os doentes, voluntários, terão que ter idade igual ou superior a 18 anos, ter desenvolvido um cancro do intestino em fase avançada e estar dentro de determinados parâmetros, já definidos, de inclusão e de exclusão no estudo.
A investigação decorrerá nos Institutos Portugueses de Oncologia (IPO) de Porto e Coimbra, no Centro Hospitalar do Funchal e nos Hospitais da Universidade de Coimbra, Beja, Barreiro, São João do Porto, Pedro Hispano de Matosinhos, São Marcos de Braga, Ponta Delgada e Garcia de Orta, de Almada.
Segundo as estatísticas, mais de 360 mil doentes na Europa Ocidental desenvolvem, por ano, cancro do intestino, o que corresponde a cerca de mil novos casos por dia.
Trata-se do quarto cancro mais comum a nível mundial, com estimativas que apontam para o aparecimento de cerca de 780 mil casos por ano, e o segundo mais comum na Europa Ocidental, logo a seguir ao cancro do pulmão (nos homens) e ao cancro da mama (nas mulheres).
Em Portugal, estima-se que existam mais de 5.500 novos casos por ano, um quarto dos quais já com metástases (propagação de células tumorais da localização original para qualquer outra parte do corpo, formando focos secundários da doença) no momento do diagnóstico, e que por dia morram dez pessoas vítimas deste carcinoma.
As estatísticas indicam ainda que, de todos os novos casos identificados anualmente, metade desenvolverá metástases e destes apenas três por cento sobreviverão mais de cinco anos.
Mais de 50 por cento das pessoas diagnosticadas com cancro dos intestinos morrerá desta doença.