Ordem dos Médicos/Norte apela ao controlo dos medicamentos homeopáticos
O presidente da Ordem dos Médicos/ Norte exortou hoje o Governo e o Infarmed a "pressionar" a União Europeia para exigir que os medicamentos homeopáticos sejam submetidos aos mesmos critérios de rigor e eficácia dos produtos farmacêuticos.
"Se fossem aplicados aos medicamentos homeopáticos os mesmos critérios de controlo de eficácia e de composição utilizados para os produtos farmacêuticos, a esmagadora maioria seria retirada do mercado", disse Moreira da Silva, alegando que "a homeopatia não tem fundamento científico e os seus medicamentos não têm qualquer eficácia".
Em conferência de imprensa, o responsável da secção regional do Norte da Ordem dos Médicos apelou ao Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) para "apertar a vigilância" e "não pactuar com a tentativa de vender gato por lebre".
Moreira da Silva lamentou que se pretenda a transposição da legislação europeia para a portuguesa sem exigir controlo de eficácia e composição aos produtos homeopáticos.
"Isto só se pode explicar pelos muitos interesses económicos envolvidos, nomeadamente da França e da Alemanha, principais fornecedores daquele tipo de medicamentos", afirmou.
Numa visita à página na Internet do "National Center for Complementary and Alternative Medicine" do US National Institute of Health, Moreira da Silva disse ter constatado que "mesmo os defensores da homeopatia não conseguem comprovar a sua eficácia".
"O principal objectivo deste tipo de produtos, como temos vindo a alertar, é enganar as pessoas, como já ficou amplamente demonstrado por vários artigos científicos", o último dos quais foi publicado pela revista britânica The Lancet, afirmou.
Neste artigo, investigadores suíço-britânicos demonstram que a homeopatia não tem maior valor do que o placebo - comprimidos idênticos aos do medicamento que se pretende testar, mas feitos à base de farinha e água, de forma a eliminar o efeito de sugestão.
Depois de submeter vários pacientes a 110 tratamentos com produtos homeopáticos e com placebos, aquela equipa de investigadores constatou que a primeira técnica não foi mais eficaz do que a segunda, refere o artigo da The Lancet.
Os doentes, que também receberam tratamentos de medicina convencional, sofriam de asma, alergias e problemas musculares.
Apesar de alguns pacientes terem sentido melhoras depois de serem submetidos à homeopatia, "isso nada tem a ver" com o conteúdo dos medicamentos que tomaram, afirma no artigo o investigador Matthias Egger, da Universidade de Berna (Suíça).
Se esta técnica parece funcionar, é pela forma como a terapia é administrada, já que o homeopata costuma dar uma atenção personalizada ao paciente, acrescenta.
A comunidade médica tem-se mostrado dividida quanto aos efeitos da homeopatia, que se baseia na premissa de que as doenças se curam com remédios que produzem os mesmos sintomas, mas administrados em doses infinitesimais.
No editorial, The Lancet escreve que os médicos devem agora ser "corajosos e honestos quanto à falta de benefícios" deste tipo de medicina.
No entanto, o semanário abre a porta à dúvida ao indicar que a Organização Mundial de Saúde (OMS) prepara um relatório em que avalia positivamente a homeopatia.
A homeopatia baseia-se em teorias do século XVII e foi desenvolvida por Samuel Hahnemann, médico e químico alemão.