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Organização médica palestiniana vence Prémio Champalimaud de Visão
A Fundação Champalimaud distinguiu com o seu Prémio Visão, de um milhão de euros, o Grupo de Hospitais Oftalmológicos de São João de Jerusalém, que trata cegueira evitável nos territórios palestinianos.
João Silveira Botelho, vice-presidente da Fundação Champalimaud, sublinhou que a instituição trabalha "sem olhar a credos ou etnias e classes sociais". "Reúne as três religiões que se cruzam naquela área", referiu, considerando "corajosas" as equipas que acompanham milhares de utentes e fazem milhares de cirurgias anualmente.
O grupo São João de Jerusalém "realiza um trabalho extraordinário no combate à cegueira evitável", precisamente um dos objetivos do Prémio Champalimaud para a Visão, o maior do mundo na área, acrescentou Silveira Botelho à RTP, esta tarde.
O grupo de hospitais oftalmológicos tem ainda "um papel importantíssimo na promoção da Paz", sublinhou o vice-presidente da Fundação Champalimaud.
Numa entrevista à Lusa em Lisboa, Ahmad Ma`ali, administrador da instituição, destacou ser "uma honra e um privilégio" receber o Prémio Champalimaud Vision Award 2023.
"É o maior prémio a nível mundial para a visão e penso que é o reconhecimento dos nossos esforços humanitários, que temos vindo a colocar nos cuidados aos doentes nos últimos 140 anos. Estamos muito entusiasmados com este prémio, que nos dá uma plataforma a nível mundial, para que as pessoas possam reconhecer os esforços que temos vindo a desenvolver na luta contra a cegueira", afirmou.
Para Ma`ali, o prémio "veio na altura certa", porque permite o reconhecimento "a nível mundial" de que o Grupo é "uma das instituições internacionais mais importantes na área da luta contra a cegueira".
Ma`ali lembrou que, em 2022, o SJJEHG assistiu cerca de 143.000 pacientes (quase 12.000 por mês), tendo realizado 6.900 grandes cirurgias (o que dá uma média mensal de quase 580).
Tratando-se da única instituição na região onde médicos e enfermeiros palestinianos podem especializar-se em oftalmologia, o administrador da instituição disse à Lusa que o SJJEHG conta com 45 médicos, 195 enfermeiros e 30 técnicos de saúde.
"O contributo de diversos doadores e o esforço incansável de toda a equipa têm um objetivo: permitir o tratamento dos doentes, independentemente da etnia, religião ou capacidade financeira", adiantou Ma`ali à Lusa, lembrando as dificuldades no terreno.
"Vivemos num país que sempre teve os seus próprios problemas de segurança política. O São João de Jerusalém está situado em Jerusalém Leste e por isso muitos dos nossos pacientes, entre 50% a 75%, têm de viajar da Cisjordânia e de Gaza para o hospital. Para tal, têm de ter passes especiais, autorizações especiais e têm de as solicitar às autoridades israelitas", explicou.
"No entanto, temos uma boa relação de trabalho com as autoridades, temos uma boa relação de trabalho com a Autoridade Palestiniana e com as autoridades israelitas, para nos ajudarem a garantir que o nosso pessoal, os nossos bens, o nosso equipamento e os nossos medicamentos são transportados para a Cisjordânia e também para Gaza. Sim, há dificuldades de acesso, mas conseguimos resolvê-las se abordarmos as autoridades", acrescentou o administrador do SJJEHG.
Além disso, prosseguiu, os residentes na região têm dificuldade em obter os tratamentos de que necessitam, pois problemas financeiros e as restrições de circulação "atrasam" o acesso aos tratamentos, "o que pode ter consequências graves numa doença oftalmológica".
Ma`ali lembrou que, em 2008, o SJEHG realizou um estudo epidemiológico exaustivo na região, que permitiu percecionar que a taxa de cegueira nos territórios palestinianos era dez vezes superior à verificada no Ocidente.
com Lusa