Os anos de co-habitação pouco pacífica de Soares e Cavaco

Os anos de co-habitação pouco pacífica de Soares e Cavaco

Cavaco Silva e Mário Soares, que partilharam durante quase dez anos o palco da política nacional numa co-habitação nem sempre pacífica e algumas vezes turbulenta, reencontram-se agora para disputar as presidenciais de Janeiro.

Agência LUSA / Adicionar como fonte informativa

O ex-primeiro-ministro e o antigo presidente da República conheceram-se há cerca de 20 anos, e tiveram mais de três centenas de encontros, entre 1985 e 1995, quando Cavaco Silva estava em S. Bento e Mário Soares no Palácio de Belém .

"A grande maioria das 310 reuniões a sós com Mário Soares no Palácio de Belém (...) processou-se em clima de tranquilidade. Houve-as também com alguma tensão, principalmente no seu segundo mandato (...), mas entre nós imperou sempr e o respeito mútuo", revelou Cavaco Silva, no segundo volume da sua autobiografi a política.

"As minhas relações com o primeiro-ministro foram sempre cordiais, embo ra talvez um pouco distantes e - digamos - impessoais. Mas, realmente, correctas , em todo o sentido do termo. Não houve choques nem dificuldades", havia já dito Mário Soares em 1997, em entrevista a Maria João Avillez.

Contudo, apesar da cordialidade assumida por Mário Soares e Cavaco Silv a, as relações entre os agora candidatos à Presidência conheceram momentos de gr ande tensão.

Logo no início mandato de Cavaco Silva como primeiro-ministro ficou fam osa a forma como Mário Soares se referiu a ele, como sendo alguém que "não tinha currículo".

Uma crítica que, anos mais tarde, na sua autobiografia, Cavaco Silva re conheceu como verdadeira: "Eu confirmo neste livro que não tinha currículo polít ico. Tive depois de adquirir algum e aprender a lidar com os que tinham mais cur rículo do que eu", afirmou o antigo na apresentação do seu livro, em 2002.

Durante o primeiro mandato de Soares em Belém, as relações com Cavaco S ilva foram mais ou menos pacíficas. Uma realidade que mudou logo após a segunda vitória de Mário Soares nas presidenciais de 1991, com o apoio do PSD.

Os sucessivos vetos presidenciais a diplomas do Governo e muitos pedido s de fiscalização preventiva junto do Tribunal Constitucional levaram mesmo Cava co Silva a lançar um ataque ao que chamou "forças de bloqueio", durante o congre sso do PSD, realizado em Novembro de 1992.

No ano seguinte, um dos motivo de tensão foi a "presidência aberta" de Mário Soares à Área Metropolitana de Lisboa, numa altura em que, dentro do PSD, Soares era, segundo Cavaco Silva, visto como "o verdadeiro chefe da oposição e o mais perigoso adversário político" do Governo.

"Desconfiado", como o próprio admitiu anos mais tarde, "em relação ao c omportamento do Presidente da República", disse-lhe que o Governo "não tinha voc ação para bombo da festa" e recusou o pedido para que ministros acompanhassem So ares na presidência aberta.

Ainda nesse ano, Mário Soares reúne um grupo de amigos num jantar no re staurante Avis, no Chiado, entre os quais o actual Presidente da República, Jorg e Sampaio, e o também candidato a Belém nas presidenciais de Janeiro Manuel Aleg re.

A hipótese de dissolver o Parlamento é discutida abertamente e divulgad a num semanário nos dias seguinte. A situação é, anos mais tarde, classificada p or Cavaco Silva como "um absurdo total".

Em Maio de 1994, o congresso Portugal - Que Futuro?, organizado pelos s oaristas e recheado de críticas ao Governo de Cavaco Silva, marca mais uma etapa nas difíceis relações entre São Bento e Belém.

Apenas dois meses mais tarde, em Setembro, é acrescentado mais um episó dio: o bloqueio da Ponte 25 de Abril. E, enquanto o executivo de Cavaco Silva vi ve um dos seus mais conturbados momentos, Soares fala no "direito à indignação d os cidadãos".

Já no final desse ano, o "tabu" de Cavaco Silva sobre a sua recandidatu ra às legislativas de Outubro de 1995 voltou a fazer tremer as relações com Mári o Soares, que acabaria por saber pela comunicação social que o então primeiro-mi nistro não iria novamente a votos.

Uma situação que o ex-Presidente confessou mais tarde lhe ter desagrada do "profundamente".

Dois anos mais tarde, quando questionado sobre o futuro daquele a quem acusou de ter um "comportamento arrogante", Mário Soares respondeu com outras pe rguntas.

"É ainda muito jovem e adquiriu imensa experiência. Como irá utilizá-la ? Não sei. Parece-me que começou cedo de mais a falar. E, porventura, excessivam ente. Quererá voltar à política? Regressar ao Governo? Recandidatar-se à Presidência da República? Contra quem? Voltará duas vezes o cavalo do poder a passar à sua porta? Terá condições para o montar de novo? São diversas as variáveis e bas tantes as incógnitas... E, entretanto, as mentalidades portuguesas continuam a mudar aceleradamente. Terá Cavaco Silva isso em conta?" Incógnitas que desaparecem oito anos depois, com o anúncio da candidatura de Cavaco Silva a Belém, onde terá como principal adversários precisamente Mário Soares.


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