Padre escreve carta aberta sobre razões do "Sim" no referendo do aborto

Viseu, 11 Fev (Lusa) - O padre Costa Pinto, que há dois anos assumiu votar "Sim" no referendo sobre a despenalização do aborto vai enviar uma carta aberta aos bispos e a alguns sacerdotes portugueses, enunciando as razões porque o fez.

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"Carta Aberta aos irmãos bispos, sacerdotes, diáconos e demais fiéis da Igreja Católica, Apostólica Romano Cristã que vivem em Portugal" é o nome da pequena publicação que já está na tipografia.

Manuel Augusto da Costa Pinto, de 81 anos e que vive em Viseu, está dispensado de paróquias e apenas realiza missas a pedido de colegas.

Foi numa dessas missas que, há dois anos - ao falar entusiasmado sobre a misericórdia de Deus e de Jesus ter perdoado mesmo a mulher adúltera - disse que votaria sim no referendo, tendo depois reconhecido que agiu mal, pelo local em que se encontrava.

"Não o devia ter feito ali, naquela ocasião", salientou Costa Pinto, acrescentando, no entanto, que não se arrepende de ter assumido que ia votar "Sim", uma posição que continua a defender na carta aberta.

"Eu quero provar aos meus irmãos cristãos, primeiramente aos bispos, que o meu voto sim a favor da lei da despenalização da mulher na questão do aborto foi feito de consciência firme e formada", explicou o padre à Agência Lusa.

A primeira razão do seu voto foi "defender a mulher, pecadora ou criminosa, o que é conforme não só ao espírito, mas à própria letra do Evangelho".

"Outra porque é um processo de evitar os homicídios dos meninos à nascença, que as mulheres não puderam, não souberam fazer o aborto. O menino nasce numa casa de banho, metem-no num saco plástico e sarjeta ou valeta. Essa era uma questão que me preocupava muito", acrescentou.

Também a própria saúde da mulher que se via obrigada a recorrer a abortos clandestinos pesou na hora do voto.

Por outro lado, justificou, "a lei não ia directamente e ostensivamente contra a lei da Igreja, porque não liberalizava o aborto, como noutros países acontece, nomeadamente na Inglaterra, onde podem fazer aborto até à véspera do parto".

"A nossa lei põe limite até às 10 semanas e isso tem o seu fundamento científico. Poderá não ser unânime, mas há opiniões de sábios, biologistas e geneticistas que dizem que até às 10 semanas não haverá um ser humano", afirmou.

O padre referiu que "a intervenção do Estado é puramente material e não coincide necessariamente com a decisão da mulher".

"O Estado não impõe, nem pede à mulher para ir ao hospital. A mulher é que decide ir ao hospital e se for o Estado dá-lhe apoio", sublinhou.

A posição que tomou em 2007 levou a fortes críticas de populares da paróquia de Ribafeita, onde costumava realizar missas.

"Mas que anda esse homem a fazer na Igreja? Só pode ter expulsado o Espírito Santo e admitido o diabo para chegar a esse ponto", disse na ocasião um homem à Lusa.

"O padre Manuel deve estar possuído pelo diabo", considerou outra mulher.

Também essas críticas dos populares constam de um apêndice da carta aberta e são comparadas ao Evangelho, avançou Costa Pinto, dando como exemplo a passagem em que os fariseus foram ter com Jesus e disseram "Ele fala tudo isso por força de Belzebu".

O padre tem já pensada outra obra, "sobre tudo o que se refere ao sexo", que deverá intitular-se "O Embrião que caiu do céu".

"Quando falam do embrião parece que falam de um embrião que não existiu, nem existe, nem existirá nunca. É um embrião que caiu do céu. A nós interessa é o embrião do Manuel e da Maria, que tiveram um problema", sublinhou.

AMF


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