Pais e profissionais não sabem lidar com deficientes mentais
Os pais e profissionais que lidam diariamente com deficientes mentais têm "comportamentos errados" na abordagem da sexualidade, podendo causar-lhes angústia ou mesmo sentimentos de marginalização, alertou a especialista Ivone Félix.
A chamada de atenção feita pela terapeuta ocupacional, que trabalha há mais de duas décadas na Cooperativa de São Pedro, em Barcarena, vai voltar a ouvir-se esta quinta-feira durante o Seminário "Exclusão Social e Saúde Sexual e Reprodutiva", quando for debatido o painel sobre pessoas com deficiência mental.
"Os profissionais e pais que mais directamente lidam com eles têm muitas vezes comportamentos errados, ao reprimirem a sua sexualidade" ou, simplesmente, ao verem as pessoas como seres assexuados, disse à agência Lusa Ivone Félix, antecipando a sua intervenção no Seminário.
Na opinião da terapeuta, expressa num artigo publicado recentemente, "reprimir a sexualidade não vai fazer com que ela desapareça, mas sim angustiar ou tornar mais agressivo o deficiente".
De acordo com José Marques, do Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência, em 2001 existiam em Portugal 70.994 deficientes mentais.
Uma cifra que parece não justificar a "criação de programas especiais para estas pessoas", criticou Ivone Félix, lamentando que esta franja populacional continue a não ser uma preocupação da sociedade.
Assim, apesar de estar cientificamente provado que a maioria desenvolve a sua sexualidade tal como todas as outras pessoas, os seus desejos continuam a ser amordaçados.
Para a directora pedagógica da Cooperativa de São Pedro, reprimir a sexualidade é "limitar a pessoa enquanto ser humano", "é isolá-la e marginaliza-la ainda mais".
Se alguns pais optam "por uma atitude punitiva e repressiva", a verdade é que a maioria se preocupa com as manifestações sexuais dos seus filhos, admitindo no entanto não saber como actuar face a esses comportamentos, revela um estudo realizado em Portugal há cerca de uma década.
O autor do estudo, intitulado "A dimensão afectivo-sexual na pessoa deficiente", constatou precisamente "um silêncio cúmplice e preconceituoso em relação a determinados comportamentos sexuais dos filhos".
A sociedade actual parece continuar a "negar ao deficiente mental o direito a uma vida afectiva e sexual, chegando mesmo a ser visto como um ser assexuado", revela, por seu turno, o trabalho da investigadora Maria de Lurdes Pereira Ramos.
"É necessário provar que é produtivo no trabalho e socialmente responsável para poder atingir o estatuto de adulto, estatuto que carrega consigo a permissão de tomar parte na actividade sexual", refere a investigadora.
Já no que toca à intervenção dos técnicos, Maria de Lurdes Ramos detectou que se sentem "condicionados pela própria política da instituição", sendo que a falta de regras explicitas pode levá-los a agir de acordo com as suas próprias ideias e atitudes.
A investigação de Maria de Lurdes Ramos concluiu que existe "pouca abertura das instituições de educação especial, no sentido de promover esses contactos e proporcionar aos jovens a possibilidade de conviver com os seus pares e ambientes exteriores ao familiar".
Uma conclusão que vai ao encontro de um estudo realizado em 1989, no qual a maioria dos técnicos reconhecia que os deficientes eram sexualmente activos e estabeleciam relações afectivas e sexuais, mas onde os indivíduos com deficiência mental diziam que os técnicos os impediam de estabelecer essas mesmas relações.