Palhaço guarda memórias de 50 anos de gargalhadas

Depois de mais de 50 anos dedicados à difícil arte de fazer rir, o palhaço "Kikas" arrumou definitivamente o nariz vermelho, juntando-o às 4000 peças que compõem o "cantinho" onde guarda e mostra memórias de muitas gargalhadas.

Agência LUSA /

Eurico Dias, 82 anos, fechou o quiosque que explorou em Moledo, Caminha, e transformou-o no "Cantinho do Palhaço", sempre disponível para visitas de miúdos e graúdos, por onde já passaram mais de 3000 pessoas.

Naquele mágico cantinho, há palhaços em cortiça, cerâmica e prata, em pintura e escultura, de todas as formas e feitios, que chegaram de vários cantos do mundo, desde a Alemanha (de onde é proveniente o primeiro da colecção) até à Suiça, Andorra e China.

Alguns chegaram em chaveiros, outros em baloiços, um até toca trompete.

"A colecção não pára de crescer, ainda neste Natal me ofereceram mais 11 palhaços. Já começo a ter sérias dificuldades em arranjar espaço para colocar tanta coisa", afirma Eurico Dias.

O "museu" guarda ainda fotografias, cassetes de vídeo, desenhos, recortes de jornais e indumentária de palhaço, em que figuram, em lugar de destaque, os grandes sapatos que "se fartaram de levar pisadelas" nas actuações por todo o Portugal e no estrangeiro.

"Os miúdos pisavam-me de propósito, porque achavam graça aos sapatos, mas de vez em quando eu pagava-lhes com a mesma moeda, para eles ficarem a saber o que é bom para os calos", conta, com humor.

Antigo praticante de futebol e hóquei e patins (em ambos os casos como guarda-redes) e de hóquei em campo (avançado), foi precisamente durante um estágio, no Luso, por volta de 1950, que "Kikas" fez a sua primeira "grande actuação".

"Pediram-me para fazer umas coisas para animar o estágio e a verdade é que, a partir daí, nunca mais parei", recorda, confessando que um dos momentos que guarda com particular carinho foi uma actuação no Hospital Dona Estefânia.

"Durante a actuação, um miúdo de seis anos que estava para ser operado porque o primo lhe tinha dado ácido a beber disse-me que queria uns sapatos iguais aos meus. Esperei pela operação, que durou mais de seis horas, e ofereci-lhe os meus sapatos", diz, com visível emoção.

Igual sorte teve um outro miúdo que se fartou de "chatear" o "Kikas", pedindo-lhe os sapatos, e que viu o seu pedido satisfeito em plena actuação, em cima do palco.

O palhaço descalçou os sapatos e deu-lhos, mesmo ali, e continuou a actuar como se nada se tivesse passado.

"Foi uma gargalhada geral", refere Eurico Dias, confessando que, ainda hoje, o que o faz rir é sentir que consegue fazer rir os outros.

O primeiro cachê do palhaço "Kikas" foi de 500 escudos (2,5 euros na moeda actual), a dividir, a meias, pelo seu colega de palco.

Seria porque, de facto, não foi. É que, na hora do pagamento, o responsável pela colectividade promotora do espectáculo, em Mem Martins, fartou-se de falar nas dificuldades financeiras e nas mais que muitas necessidades da agremiação, acabando por "amolecer" o coração do palhaço.

"Olhe, acabei por dizer que o espectáculo era de borla. Ainda tive de aturar o meu colega, mas perante tudo o que ouvi não me sentiria bem para levar dinheiro àquela gente", conta.

A quem o palhaço "Kikas" e companhia não perdoaram foi ao PCP, partido que lhes foi bater à porta para "encomendar" um espectáculo, tendo-lhes cobrado 26 contos, ou não fosse Eurico Dias, como ainda hoje é, militante do PSD.

"É claro que não podia dar uma borla", refere, por entre uma estridente gargalhada.

Ressalva, no entanto, que sempre trabalhou "com o mesmo afinco" para toda a gente, "independentemente de cores partidárias".

Nascido em Elvas, a 31 de Janeiro de 1924, Eurico Gomes vive há 23 anos em Moledo, Caminha, de onde é natural a sua terceira (e actual) mulher.

"O Alentejo e o Minho são os meus dois amores", confessa, evocando um episódio de infância que já parecia adivinhar o que seria a sua vida futura.

"Na representação de uma peça na escola, eram necessárias duas meninas, para envergar o traje regional à minhota. Como só havia uma menina, eu lá vesti a saia e desenrasquei o papel. Na altura, estava muito longe de poder imaginar que o Minho seria a minha segunda terra", diz, enquanto mostra uma fotografia evocativa da sua "incursão feminina".

Além das suas três esposas, confessa que há mais três mulheres na sua vida: a poetisa Florbela Espanca, a atleta Rosa Mota e a actriz Laura Alves.

"Admiro-as muito, muito mesmo", diz, convicto.

No campo masculino, os seus ídolos são Charlie Chaplin e o "Luciano", que classifica, sem ironias, "um grande palhaço".

Eurico Dias também fez teatro, tendo contracenado com "monstros sagrados" como João Villaret, Mirita Casimiro, Laura Alves, Irene Cruz e Raul Solnado.

As memórias de toda uma vida de artista estão guardadas no seu "cantinho", onde cada peça tem uma história própria para contar.

"Ah, se algumas destas peças falassem", suspira, com um sorriso malandro.

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