Parlamento rende-se à "irreverência" de uma emocionada Odete Santos
O Parlamento em peso rendeu-se "à irreverência" da deputada Odete Santos, que interveio pela última vez no plenário com palavras de despedida que a emocionaram e que suscitaram os aplausos de pé de todas as bancadas.
O tema da sua declaração política no período antes da ordem do dia - uma intervenção muito crítica sobre os novos diplomas do Governo na área da Justiça - acabou por ser "abafado" pela circunstância de ser o último plenário em que participou.
Já no final da intervenção, e depois de ter dito que não haveria de chorar, Odete Santos emocionou-se quando se dirigiu em particular à bancada do PCP, a quem agradeceu "os mandatos e a aprendizagem de mais de 26 anos" e de quem se despediu com o inevitável "Até amanhã, camaradas", um dos mais conhecidos livros de Álvaro Cunhal.
Como se tratava de "um dia especial", nas palavras do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama suspendeu a contagem do tempo para Odete Santos poder falar sem restrições.
"Mas chegou a hora de pôr termo a esta intervenção, e, consequentemente, a uma actividade, que não profissão, política, de mais de 26 anos. (...) Se vou ter saudades deste trabalho? Mesmo de violentos debates em que me vi envolvida não raras vezes? É claro que vou sentir saudades (...) mas também tenho saudades do futuro", afirmou.
No final, Odete Santos foi aplaudida de pé por todas as bancadas, incluindo a do CDS-PP, apesar das hesitações de alguns dos seus deputados.
O ministro dos Assuntos Parlamentares, Santos Silva, associou-se à homenagem e usou uma imagem da "Odisseia", na tradução de Frederico Lourenço, para classificar a deputada comunista: "As suas palavras não são as palavras de vento, são as palavras apetrechadas de asas (...) palavras rápidas, que chegam aos seus interlocutores", disse.
A primeira bancada a usar do direito a um pedido de esclarecimento foi a do PSD. O deputado Montalvão Machado, colega de Odete Santos na comissão de Assuntos Constitucionais, elogiou a "irreverência e a juventude" de Odete Santos que considerou "a imagem da frontalidade".
Logo de seguida o deputado democrata-cristão Nuno Magalhães disse associar-se às palavras de Montalvão Machado e disse reconhecer em Odete Santos, "a capacidade de melhorar a área da Justiça".
Foi o deputado do PEV Francisco Madeira Lopes que, depois de recordar os "apartes impulsivos" e de elogiar "a garra, a energia, a coragem e a irreverência" da deputada, se referiu ao tema da declaração política, associando-se às críticas de Odete Santos ao diploma do PS sobre o acesso à Justiça.
O líder parlamentar do PS, Alberto Martins, afirmou o "grande apreço" pessoal e da bancada e assegurou a identificação do PS com as preocupações de Odete Santos na área dos Direitos Fundamentais.
"Tão perto e tão longe temos estado", disse, destacando "o sentido de paixão" das intervenções da deputada e "o gosto na defesa da Justiça".
Do lado do BE, o líder parlamentar Luís Fazenda saudou a "marca inconfundível" de Odete Santos, afirmando concordar com a "antecipação do debate que há-de haver sobre a deriva securitária do PS na Justiça".
Na sessão, que durou perto de uma hora e à qual assistiu a secretária-geral da Assembleia da República, Adelina Sá Carvalho, até Jaime Gama teve direito a um longo aplauso depois de ter homenageado a deputada Odete Santos, considerando que "deu um grande contributo ao Parlamento português".
Depois de mais umas palavras e picardias com a bancada do CDS-PP e com o ministro dos Assuntos Parlamentares - "gostaria que as palavras do Governo também tivessem asas mas nem sempre têm" - Odete Santos saiu do plenário.
No corredor, alguns funcionários foram cumprimentá-la e a deputada estava visivelmente contente: "foi bonito", disse.