Passadeiras podem ser armadilhas para peões, alerta psicólogo
O psicólogo Jorge Santos, da Universidade do Minho, alertou hoje para a possibilidade das passadeiras poderem potenciar acidentes ao distorcer a percepção dos condutores em relação à velocidade do peão.
Socorrendo-se de exemplos, o psicólogo lembrou que as listas das zebras servem nomeadamente para distorcer a noção de velocidade e de direcção e assim iludir os predadores, da mesma maneira que quando se colocam à mesma velocidade dois objectos, um escuro e um claro, sob um fundo escuro, parece ser o claro que anda mais rápido.
Com a ajuda de um computador, o psicólogo mostrou mesmo um exemplo de dois objectos a percorrer à mesma velocidade um fundo semelhante ao das passadeiras e que aparentemente iam em velocidades diferentes.
Jorge Santos falava sobre o tema "A percepção da velocidade", num seminário sobre "A gestão da velocidade, dimensões técnicas e psicossociais", organizado pela Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), em Lisboa.
Especialista em psicofísica, Jorge Santos alertou para o facto de o estudo que está a fazer não ser ainda conclusivo, não podendo por isso afirmar categoricamente que as passadeiras são perigosas para os peões, mas alertou para a existência de um risco de isso acontecer.
"Os padrões de elevado contraste, como o das passadeiras, podem ter efeitos negativos muito fortes na percepção da velocidade do condutor e do peão", afirmou.
Socorrendo-se das estatísticas para "dar força" ao que ainda é apenas uma teoria o responsável lembrou a "elevada mortalidade nas passadeiras".
"Há estudos que indicam que percentualmente morrem mais pessoas nas passadeiras do que quando há atravessamentos fora das passadeiras. Quase apetece dizer, os senhores não passem nas passadeiras", referiu.
Os desenhos das passadeiras - as riscas - podem ser ainda mais perniciosos para crianças e pessoas de baixa estatura, alertou, frisando sempre que esta questão "não é factual, mas uma possibilidade".
à Lusa Jorge Santos explicou que sendo as passadeiras regulares e simétricas, com elevado contraste, os efeitos de distorção podem ser muito fortes.
Embora as intenções sejam as melhores, ao fazer uma passadeira para peões numa rua o homem pode estar "a dificultar a actividade perceptiva", já que a percepção "muda radicalmente" consoante o meio envolvente.
Porque "se temos um objecto a mover-se e se muda o contexto, a percepção que os outros têm da sua velocidade altera-se de forma dramática", frisou Jorge Santos, que promete para o próximo ano dados mais consistentes sobre o que, neste momento, é apenas uma teoria.