Pediatra defende entrega da bebé de Viseu aos avós maternos
A coordenadora do Núcleo de Estudo da Criança de Risco do Hospital Pediátrico de Coimbra (HPC) defendeu hoje a entrega da guarda da bebé de Viseu vítima de maus-tratos aos avós maternos.
Após a leitura do boletim clínico sobre o estado da menina, hoje à tarde no HPC, Jeni Canha precisou, em declarações aos jornalistas, que "os avós maternos pediram ajuda a toda a gente e tudo falhou" e que, segundo a sua apreciação, são as pessoas mais indicadas para acolher a bebé.
"Esta criança dispõe de família que a tem acompanhado - os avós maternos -, manifestando afectividade e, consciente das suas responsabilidades, disponibilidade para a acolher", lê-se no boletim difundido hoje.
Embora advertindo, antes da leitura do boletim, que não iria responder a quaisquer perguntas dos jornalistas, a pediatra acabou por se disponibilizar a esclarecer, no final, alguns pontos do texto.
"Há ainda alguns exames a fazer, mas, em termos clínicos, a criança necessitará de mais uma a duas semanas de internamento", informou, adiantando que a menina se mantém sob a guarda do HPC até à decisão do Tribunal.
Sobre o actual estado de cegueira da bebé, a médica disse não se poder apurar, presentemente, se a situação é ou não reversível.
"Ainda há alguma esperança, dada a capacidade de recuperação de qualquer criança", referiu.
Segundo o boletim, a criança, com dois meses e meio, tem registado uma evolução clínica favorável - "está consciente, alerta, alimenta-se bem, galreia e já sorri" - , mas "persistem grandes reservas quanto ao prognóstico neurológico futuro e à recuperação da capacidade visual".
Jeni Canha avisou que o boletim clínico de hoje é o último sobre o estado de saúde da bebé, que "tem vida própria e direito à privacidade".
"Dada a publicidade do caso, muita gente se mostrou curiosa e preocupada com o estado de saúde da menina, pelo que demos algumas explicações. Mas, a partir de agora, não fazemos mais boletins clínicos: é uma criança como qualquer outra, tem direito à sua privacidade", sublinhou a professora da Faculdade de Medicina de Coimbra.
A bebé está internada no HPC desde o dia 10 de Dezembro, devido a várias lesões provocadas por maus-tratos.
Devido aos "fortes indícios" da autoria dos maus-tratos, os pais da criança encontram-se em prisão preventiva.
O relatório preliminar sobre este caso elaborado pelas Inspecções Gerais da Justiça e do Trabalho e da Solidariedade Social, divulgado na quinta-feira, concluiu que houve deficiências na actuação da Comissão de Protecção de Menores de Viseu e do Hospital de São Teotónio, onde a bebé foi assistida.
A Comissão de Protecção de Menores de Viseu manifestou hoje solidariedade com as técnicas visadas no relatório preliminar, referindo que actuaram "com a prudência e diligência devidas e no estrito respeito da lei, face às informações de que dispunham e à sua análise objectiva".
Os ministros da Justiça e do Trabalho e da Solidariedade Social vão pedir ao Ministério Público "uma auditoria aprofundada" a este caso.