Pimenta Machado era responsável pela compra e venda de jogadores
O ex-dirigente do Vitória de Guimarães, André Coelho Lima afirmou hoje no tribunal local que as compras e vendas dos jogadores eram da responsabilidade exclusiva do ex-presidente Pimenta Machado, que disso só informava a direcção "à posteriori".
"As questões relacionadas com aquisições ou transferências de jogares eram tratadas pelo presidente e só eram discutidas, a seguir e nem sempre em pormenor, em reunião de direcção", afirmou Coelho Lima.
O ex-dirigente sustentou que tal prática era justificada por Pimenta Machado com "o receio de fugas de informação para a comunicação social".
Pimenta Machado está a ser julgado por quatro crimes de peculato e dois de falsificação de documentos, enquanto que o ex-dirigente do Benfica, Vale e Azevedo - que foi dispensado da audiência até quinta-feira - responde por dois de falsificação de documentos.
O despacho de pronúncia do julgamento - que prossegue quarta-feira nas Varas Mistas - engloba a alegada apropriação indevida de verbas pela transferência dos jogadores Fernando Meira para o Benfica, Pedro Barbosa e Pedro Martins para o Sporting e a aquisição de dois futebolistas brasileiros, Alexandre e Riva.
Questionado pelo procurador do Ministério Público (MP), Armando Coimbra, Coelho Lima confirmou que Pimenta Machado disse, em 2004, numa reunião de direcção, que iria comprar pessoalmente os passes dos jogadores brasileiros, Alexandre e Riva, explicando que o fazia porque "o clube não tinha dinheiro".
Afirmou que Pimenta Machado não revelou quanto custavam os passes dos jogadores, e as respectivas condições contratuais, considerando "normal" que o detentor dos passes os cedesse ao Vitória de Guimarães.
Coelho Lima disse ainda que a exclusividade na escolha e compra de jogadores pelo ex-presidente "era prática corrente que ninguém questionava nas reuniões de direcção".
O advogado de defesa de Pimenta Machado, José António Barreiros, tentou contrariar esta versão, lembrando à testemunha que se deslocou uma vez com Pimenta Machado a Espanha para observarem um avançado-centro com vista a uma eventual aquisição.
Na sessão da manhã, o Tribunal de Guimarães ouviu também um perito do Banco BPI sobre nove cheques de nove mil contos cada, sacados pela Spormedia - empresa de Pimenta Machado - por um banco belga, e que foram transferidos para a Suiça.
A acusação diz que Pimenta Machado ficou, ilegalmente, com 450 mil euros (90 mil contos) a título de «comissão» pela venda do jogador Fernando Meira ao Benfica.
Aqueles cheques teriam sido sacados para pagar essa «comissão».
Na ocasião, o Colectivo de Juízes deferiu um requerimento do advogado do Vitória de Guimarães, Gonçalo Gama Lobo, para que fossem ouvidos como testemunhas os inspectores da Polícia Judiciária, Baltazar Rodrigues e Paulo Valadas, que investigaram o caso.
No caso da transferência de Fernando Meira, que remonta a 2000 e foi feita pela soma de 936.000 contos (cerca de 4,668 milhões de euros), o despacho de pronúncia indica que Pimenta Machado se apropriou de 450 mil euros (90 mil contos), através da "off-shore" Sportmedia, de que era proprietário.
Na fase de instrução, o ex-dirigente vitoriano referiu que tal verba visava ressarci-lo de um empréstimo confidencial que fizera, em nome próprio, junto do Banco Espírito Santo para adquirir os jogadores Preto, Evando e Ruben e pelos quais pagara 900 mil reais (514.659 euros).
"Tratou-se apenas de uma forma de justificar contabilisticamente o recebimento da verba em causa que lhe era devida", afirma José António Barreiros.
A acusação entende que Pimenta Machado se terá, também, apropriado de 260 mil euros (52.187 contos) da transferência dos dois atletas para o Sporting, o que este nega, embora admita desconhecer como é que as verbas foram contabilizadas no clube.
No caso da compra dos jogadores Alexandre e Riva, a acusação diz que Pimenta Machado empolou deliberadamente os respectivos custos, tendo ficado com 82 mil euros.
O presidente do clube brasileiro Valeridoce - que vendeu os atletas - disse à Polícia Judiciária (PJ) que os jogadores custaram 85.878 contos, mas a contabilidade do clube inscreveu como custo a verba de 102.293 contos.
Posteriormente, Valeridoce ouvido no Brasil, disse que não se recordava dos valores exactos.
Vale e Azevedo - através do advogado Pedro Alhinho - nega ter tido qualquer proveito na compra de Fernando Meira pelo Benfica e diz que não praticou qualquer crime de falsificação de documentos ao apresentar como fiadora no negócio a escritura e o aumento de capital da sociedade de que era co-proprietário, de nome HST.