Poderiam ser evitadas mais de 1.500 mortes num ano em Portugal se o acesso aos medicamentos fosse maior

Poderiam ser evitadas mais de 1.500 mortes num ano em Portugal se o acesso aos medicamentos fosse maior

A Associação Portuguesa de Medicamentos pela Equidade em Saúde publica esta quarta-feira o primeiro Índex. Se todos tivessem acesso igual aos medicamentos, seria possível ganharem em média mais um ano de vida saudável. Ao mesmo tempo, um terço dos medicamentos aprovados não chega ao mercado em Portugal.

Ana Sofia Rodrigues - RTP /
Towfiqu barbhuiya - Unsplash

Os portugueses são os que fazem mais esforço para pagar medicamentos entre os países de referência da política do medicamento, revela um estudo que estima em 1.577 as mortes anuais evitáveis com maior equidade no acesso aos fármacos.

A primeira edição do Índex da Equidade de Acesso ao Medicamento aponta uma associação entre desigualdades no acesso ao medicamento e impactos na saúde.

Segundo o estudo, entre 2022 e 2025, o nível de equidade de acesso ao medicamento dos portugueses foi moderado (52 por cento), mas abaixo de Espanha, Itália, França e Bélgica, países de referência na definição de preço dos medicamentos.O estudo revela que Portugal apresenta cerca de quatro anos de vida com qualidade a menos do que a França.

O estudo revela mesmo que 1.577 mortes por doenças tratáveis poderiam ter sido evitadas, no período em análise, caso Portugal atingisse um nível de equidade semelhante ao de França.

"Um aumento de 5% no nível de equidade e acesso ao medicamento poderia estar associado a uma redução de 3% da mortalidade tratável por ano", refere a associação.
Jornal da Tarde | 25 de fevereiro de 2026Um terço dos medicamentos aprovados não chega ao mercado em Portugal
Cerca de um terço dos medicamentos autorizados em Portugal não chegaram ao mercado, incluindo fármacos críticos, revela o Índex.

"Cerca de 33 por cento das autorizações de introdução no mercado não resultaram numa comercialização efetiva, incluindo alguns medicamentos classificados como críticos, o que limita o acesso real dos doentes".

O presidente da associação, João Paulo Nascimento, explicou que esta situação está relacionada com "a viabilidade económica e com a política de preços" praticada em Portugal.

Segundo a análise, Portugal apresenta igualmente uma menor concorrência por substância ativa face aos países de referência.

No entanto, Portugal "é uma referência" no impacto dos medicamentos genéricos e biossimilares, apresentando consecutivamente o valor mais elevado do grupo de países analisados, destacando-se também pela celeridade na aprovação do financiamento destes medicamentos.

Segundo o estudo, estes medicamentos foram "os impulsionadores do aumento do tratamento de doentes", com um crescimento de 6,2 por cento ao ano desde 2016, representando 74% do aumento total de pacientes tratados, e reduziram o preço médio por tratamento em 15 por cento.

"Nos últimos dez anos, os medicamentos genéricos e biossimilares permitiram tratar mais de um milhão e 700 mil portugueses.
Portanto, isto não é só uma questão de equilíbrio de contas, é também acessibilidade ao medicamento e a equidade que nós pretendemos", salientou João Paulo Nascimento.

“Precisamos de políticas que efetivamente favoreçam, estimulem a utilização destes medicamentos, porque já percebemos que são ferramentas, são tecnologias de saúde essenciais para o próprio equilíbrio do sistema de saúde", defendeu.

Em contraste, Portugal apresenta dos piores tempos para financiamento de inovação, com mediana de 795 dias em 2024, comparado a 391 em Itália, 523 em França, 567 em Espanha e 476 na Bélgica.
148 euros por ano em medicamentos
Portugal apresenta o maior peso da despesa com medicamentos no rendimento médio dos cidadãos, considerando a despesa per capita e o salário médio. Cada português gasta em média 148,3 euros por ano em medicamentos, face a um salário médio anual de 20.451 euros.

Em França, o país no qual o cidadão gasta menos com medicamentos, a despesa média é de 72,7 euros, com um salário médio de 44.904 euros.

Portugal e Itália têm a maior percentagem da população a reportar dificuldades em suportar os custos com medicamentos, com 16,1 e 17,4 por cento, respetivamente, contra quatro por cento na França.

A análise também revela desigualdades regionais significativas de até dez por cento, com o Alentejo a apresentar os piores resultados, seguido da região Oeste e Vale do Tejo, enquanto o Norte, a Grande Lisboa e a Península de Setúbal registam os níveis mais elevados.

Portugal surge ainda entre os países com menor número de profissionais de saúde em atividade por 100 mil habitantes, o que condiciona o acesso à prescrição terapêutica, etapa decisiva no acesso ao medicamento.

c/ Lusa
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