Polémica impede comemoração dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Sri Lanka
Os 500 anos da chegada dos portugueses ao Sri Lanka não vão ser comemorados devido à polémica suscitada pelo partido minoritário da coligação governamental cingalesa, que exige desculpas e indemnizações dos colonizadores, foi hoje anunciado em Lisboa.
"Acordámos que seria melhor para os dois países não forçar algo que podia ser polémico. Sabemos o que aconteceu, sabemos que há interpretações diferentes, mas preferimos frisar o que nos une, a procurar o que nos divide", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros português.
Diogo Freitas do Amaral falava à imprensa após um encontro em Lisboa com os ministros da Indústria e Turismo e do Comércio do Sri Lanka, Anura Bandaranaike e Jeyaraj Fernandopulle.
O ministro do Turismo cingalês fez questão de explicar que o incómodo manifestado, sobre este assunto, pelo ministro da Cultura, Vijitha Herath, é "uma visão ressentida do colonialismo" de um pequeno partido, manifestada também em relação à colonização holandesa e britânica, que "não reflecte a posição do partido maioritário" do Governo "nem o sentimento da maioria da população".
Tanto Anura Bandaranaike como Jeyaraj Fernandopulle se declararam "muito orgulhosos" do legado dos três impérios colonizadores do Sri Lanka e referiram, nesse contexto, a persistente abundância de apelidos portugueses como Fernando, Silva, Gomes, Sousa e Fonseca nas zonas costeiras do país.
Ainda antes de se referir às comemorações, o ministro do Turismo cingalês tinha dito, a propósito da necessidade de reactivar as relações bilaterais com Portugal, que os colonizadores portugueses "saíram do Sri Lanka como amigos".
A polémica a propósito do legado português no Sri Lanka foi desencadeada há já vários meses com declarações à imprensa cingalesa do ministro da Cultura, do partido marxista JVP, afirmando que não aceitava quaisquer comemorações dos "500 anos da invasão do Sri Lanka pelos portugueses", que se assinala a 15 de Novembro próximo, sem uma "compensação de Portugal".
Em repetidas declarações à imprensa, o ministro Herath exigiu de Portugal um pedido formal de desculpas, a devolução de "tesouros roubados" de templos cingaleses, incluindo um dente do Buda de elevado valor religioso, e o pagamento de indemnizações pela destruição e pelas mortes ocorridas durante a colonização portuguesa (entre 1505 e 1658).
Vijitha Herath é membro do partido Janatha Vimukthi Peramuna (JVP), que esta semana ameaçou abandonar a coligação governamental se a Presidente, Chandrika Kumaratunga, avançar com um programa conjunto com a guerrilha separatista dos Tigres Tamiles para a distribuição de ajuda às vítimas do tsunami de 26 de Dezembro último, que só no Sri Lanka fez 31.000 mortos e um milhão de desalojados, nas zonas controladas pela guerrilha.
O JVP, que se opõe frontalmente a qualquer tipo de negociação com os Tigres Tamiles, detém 39 dos 225 assentos no Parlamento cingalês, assentos de que depende a actual maioria parlamentar do governo, uma vez que o partido que encabeça a coligação, o Partido da Liberdade e Unidade Popular, só elegeu 70 deputados.
O encontro de hoje em Lisboa foi solicitado pelos ministros cingaleses para pedir o apoio de Portugal à reactivação das negociações em Bruxelas sobre os têxteis com o Sri Lanka e com outros países, suspensas pela Comissão Europeia até que esteja resolvido o problema dos têxteis com a China.
Segundo Freitas do Amaral, "esse apoio ainda está a ser considerado, mas é altamente provável" que venha a ser assumido pelo Governo português, uma vez que "não há conflito de interesses" entre os dois países.
O ministro do Comércio cingalês explicou, por seu turno, que as exportações de têxteis do Sri Lanka para Portugal "não são um problema para a UE" porque representam apenas três milhões de dólares por ano.
Mas, acrescentou, "precisam do apoio de Portugal" para acederem ao mercado europeu, o que dinamizaria a indústria têxtil cingalesa permitindo, simultaneamente, "ajudar as vítimas do tsunami" através da criação de postos de trabalho.
Anura Bandaranaike e Jeyaraj Fernandopulle convidaram Freitas do Amaral a visitar Colombo "assim que for possível", convite que foi aceite pelo ministro português.
O encontro de hoje serviu também para reiterar o apoio português à ajuda internacional às vítimas do tsunami, que se traduziu na altura no envio de equipas médicas e ajuda humanitária, num esforço coordenado pelo Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) e em que participaram organizações não governamentais como a AMI e os Médicos do Mundo.