Políticos de vários quadrantes homenageiam líder histórico comunista
As principais figuras da política nacional prestaram hoje homenagem a Álvaro Cunhal, que morreu de madrugada, aos 91 anos, destacando o seu contributo para a democracia, mas também a sua coerência política.
À excepção do CDS-PP, todos os partidos políticos ou personalidades que reagiram à morte de Cunhal optaram por pôr de lado as divergências com as concepções comunistas, e reconheceram no líder histórico do PCP um lugar "marcante" na história portuguesa do século XX.
O funeral do antigo secretário-geral comunista, que liderou o PCP entre 1961 a 1992, realiza-se quarta-feira, dia de luto nacional, decretado pelo Governo em homenagem à "dimensão cívica e política" de Cunhal.
O Presidente da República, Jorge Sampaio, lembrou Álvaro Cunhal como "um combatente político" e "um homem grande", de "personalidade fortíssima", cuja vida é inseparável da história do século XX, em telegrama enviado ao secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, que, devido à morte do ex-líder, decidiu regressar de imediato a Lisboa, encurtando uma visita ao Vietname.
Sampaio enalteceu o lugar de Cunhal "na luta contra o Regime Autoritário, na Revolução e na consolidação da Democracia Portuguesa".
"Apesar das profundas diferenças que existiam entre nós, foi possível, nalguns casos, chegar-se a um entendimento prático, como acabou na concretização da coligação PS/PCP, que acabaria por ganhar a câmara de Lisboa, e que eu encabecei", lembrou ainda Sampaio.
Numa nota enviada à Lusa, o primeiro-ministro, José Sócrates, destacou que Álvaro Cunhal desempenhou "durante a ditadura e já depois da instauração da democracia, um papel que a história reconhecerá".
"Álvaro Cunhal é uma das grandes figuras políticas portuguesas do século XX, cuja história marcou pela tenacidade e coragem com que defendeu e lutou pelos seus ideais e pelas profundas convicções políticas", refere a nota do Governo, enaltecendo ainda "o homem de cultura e de notável sensibilidade artística".
O dirigente da comissão política do PCP Francisco Lopes considerou que a vida e a intervenção de Cunhal são "exemplo de luta" para os trabalhadores e para o povo português.
"Quando dizem que são todos iguais, há homens que são diferentes e há projectos que são diferentes", afirmou, numa declaração na sede central do PCP.
Do lado do PS, o ex-Presidente da República Mário Soares lembrou Álvaro Cunhal como um homem de "grande verticalidade, um militante abnegado do Partido Comunista e um grande resistente contra o fascismo que tem de ser admirado".
Soares, que em 1975 protagonizou com Cunhal um dos principais debates políticos, recordou a "grande influência" que o líder histórico comunista exerceu sobre si em 1941, quando o conheceu no colégio do seu pai, mas também as "grandes divergências" políticas após o 25 de Abril.
"Álvaro Cunhal marcou a vida contemporânea portuguesa de uma maneira indiscutível, concordando-se ou não com a sua acção", sustentou.
O presidente da Internacional Socialista, António Guterres, reconheceu que, independentemente das divergências, "Cunhal foi um lutador pelos seus ideais e foi uma das figuras centrais da segunda metade do século XX na História de Portugal", que "respirava firmeza de convicções".
O presidente o PS, Almeida Santos, recordou o seu "ídolo" Álvaro Cunhal, que considerou um caso "de coerência única".
"Morreu convicto que esteve sempre certo, o que não é verdade, mas morreu com essa convicção", disse ex-presidente da Assembleia da República, acrescentando que Cunhal "se bateu sempre pelos direitos dos mais pobres e dos trabalhadores".
"Um revolucionário de corpo inteiro" é como o ex-dirigente comunista Carlos Brito lembra Álvaro Cunhal, uma "grande figura do século XX português, tão grande que se pode dizer que verdadeiramente não morreu".
Carlos Brito, que se afastou do PCP em 2002, depois do partido lhe ter imposto uma suspensão de 10 meses, disse que as divergências políticas que teve com Cunhal não o impedem de ter tido sempre um "grande respeito e admiração" pela sua personalidade.
Numa declaração na sede do PSD, o presidente do partido, Luís Marques Mendes, considerou que Álvaro Cunhal "foi uma figura incontornável da última metade do século XX" e manifestou o respeito dos sociais-democratas à família e à direcção do PCP.
"No momento da sua morte, não é tempo nem oportunidade de falar de discordâncias. É tempo de exprimir o nosso respeito e apresentar condolências à família, ao Partido Comunista Português e aos seus militantes", acrescentou.
Por seu lado, o líder do CDS-PP, José Ribeiro e Castro, depois de expressar condolências pela morte de Cunhal, sublinhou "as profundas divergências" com o líder histórico comunista, que "há 30 anos atingiram momentos de risco brutal e violento para todos os portugueses".
"Quase tudo nos separou, e profundamente", assinalou Ribeiro e Castro.
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou que "não é altura para discutir política", manifestou as condolências à família e ao PCP e lembrou Cunhal como uma personalidade que "marcou muito" a segunda metade do século XX.
O dirigente do Bloco de Esquerda Fernando Rosas, ex-militante comunista nos anos 60, lamentou a morte de Álvaro Cunhal, figura "cujas concepções e estilo" marcaram a vida do PCP desde os anos 40 até à actualidade e das "mais marcantes da história política do século XX português".
"Os paradigmas que fundaram o Bloco de Esquerda não acompanham as concepções (de Álvaro Cunhal), mas isso não nos impede de nos inclinarmos perante um homem que esteve ao serviço da causa pública", disse Rosas.
Líderes políticos dos países africanos de expressão portuguesas assinalaram igualmente a morte do ex-secretário-geral do PCP.
O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Carlos Gomes Júnior, considerou que Cunhal foi "uma figura ímpar e decisiva" para a democratização de Portugal e "amigo da luta pela emancipação" dos guineenses.
O porta-voz da FRELIMO, partido no poder em Moçambique, considerou que a morte de Álvaro Cunhal constitui "uma perda irreparável" para Portugal e para o mundo, afirmando que os seus ideais eram universais.
O líder do MLSTP-PSD, de São Tomé e Príncipe, Guilherme Posser da Costa, disse que Álvaro Cunhal foi uma das figuras mais marcantes "da luta do povo português contra o fascismo" e "amigo dos povos das ex-colónias portuguesas em África no processo de luta contra o colonialismo".
A morte de Cunhal foi também noticiada pelas agências de informação internacionais, que destacaram o seu papel na resistência ao fascismo e como líder histórico dos comunistas portugueses.
Enquanto a norte-americana Associated Press salientou o seu papel carismático na direcção do PCP e diz que se tornou um "herói nacional" após o derrube do regime ditatorial em 1974, a espanhola EFE sublinhou que Cunhal morreu "sem alterar a ideologia comunista ortodoxa que abraçou aos 17 anos".