Ponte Maria Pia em estado de abandono e degradação
A Ponte Maria Pia, sobre o rio Douro, encontra-se num estado de abandono e degradação pouco compatível com o seu estatuto de monumento nacional, permanecendo por definir o futuro desta obra de engenharia inovadora para o seu tempo.
"Esta ponte foi construída no limite das possibilidades clássicas da construção metálica", afirmou Gustave Eiffel, há mais de um século, numa alusão à obra inaugurada em finais de 1877, que deslumbrou o mundo da época devido à audácia e criatividade do projecto.
A ponte, exclusivamente para uso ferroviário, assegurou a ligação entre as duas margens do Douro durante 114 anos, tendo o último comboio circulado no seu tabuleiro a 24 de Junho de 1991 (Dia de S. João), data em que foi desactivada e substituída pela moderna Ponte S. João.
Quase 16 anos depois, apesar de vários projectos anunciados, a velha ponte continua abandonada e a degradar-se, de pouco lhe valendo o facto de ser uma obra-prima de engenharia, com o maior vão construído até à altura da sua inauguração.
A ausência de qualquer resposta do governo a um pedido de esclarecimento apresentado a 11 de Fevereiro pelo PSD/Porto para saber que medidas estão previstas para a reabilitação da ponte, indicia o esquecimento a que foi votada esta obra de arte.
"Até hoje não recebemos nenhuma resposta do governo ao requerimento que apresentamos em Fevereiro", afirmou à Lusa Jorge Costa, deputado e ex-secretário de Estado das Obras Públicas, salientando que isso permite concluir que "o governo não liga absolutamente nada a este problema".
A preocupação dos social-democratas surgiu na sequência dos sucessivos atrasos na concretização de um protocolo assinado em Abril de 2004, que prevê a criação de uma pista ciclopedonal no antigo tabuleiro ferroviário.
O projecto, orçado em 1,6 milhões de euros, inclui a construção das vias de acesso à futura pista ciclopedonal e a reabilitação das margens do Porto e de Gaia, estando também prevista a criação de esplanadas, um restaurante e um centro de documentação sobre as pontes do Douro.
O protocolo, assinado pelo Governo, pela REFER e pelas câmaras do Porto e de Gaia, previa que a pista ciclopedonal estivesse operacional no Verão de 2005, mas, quase dois anos depois, as obras ainda nem sequer começaram.
"A culpa é toda da REFER", acusou Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara de Gaia, frisando à Lusa que a autarquia não está disponível para "arriscar dinheiros públicos em projectos que não são bem sucedidos".
Nos termos do protocolo, compete à REFER a desafectação do domínio público dos terrenos nas duas margens do Douro para permitir que as câmaras do Porto e Gaia construam as vias de acesso e procedam à requalificação das margens do rio naquela zona.
Por essa razão, Menezes disse que a Câmara de Gaia "não vai fazer um caminho que vai dar a um ferro-velho", mas assegurou que "no dia em que a REFER começar as obras de reabilitação da ponte, terão também início as obras no lado de Gaia".
Para a Câmara do Porto, os atrasos na criação da pista ciclopedonal também devem ser atribuídos à REFER, tendo uma fonte da autarquia salientado à Lusa que "não está nas mãos da câmara tomar qualquer iniciativa".
"Têm sido realizadas reuniões regulares com a REFER, mas ainda não foi dada uma resposta definitiva sobre o assunto", frisou a fonte do gabinete do presidente da Câmara do Porto.
Contactada pela Lusa, a REFER, um mês depois do pedido inicial de informações, optou por não se pronunciar sobre este assunto.
A opção pela pista ciclopedonal foi a mais recente das propostas apresentadas para aproveitar a ponte depois da sua desactivação para uso ferroviário.
Um grupo de trabalho criado em finais de 2002 chegou a propor a sua adaptação para o Metro do Porto ou mesmo para uso rodoviário, mas estas sugestões foram rapidamente rejeitadas depois de se ter concluído que a estrutura não permitia essas utilizações.
Posteriormente, em Novembro de 1997, no dia da comemoração do 120º aniversário da Ponte Maria Pia, o então presidente da Câmara do Porto, Fernando Gomes, apresentou o projecto de um comboio turístico e histórico para ligar as ribeiras do Porto e de Gaia, valorizando as Escarpas do Douro e as Caves do Vinho do Porto.
Este projecto nunca chegou a ser concretizado, acabando por surgir, em 2004, a ideia de criar a pista ciclopedonal, que ainda hoje aguarda concretização.
O aparente desinteresse na reabilitação da antiga travessia ferroviária não é, no entanto, suficiente para fazer desistir a Liga de Amigos da Ponte Maria Pia.
"Vamos continuar a lutar pela manutenção e utilização digna da ponte", assegurou à Lusa José Manuel Pavão, presidente da liga, confiante de que "um dia" a situação se vai alterar e a ponte voltará a recuperar a sua dignidade.