Portugal tem de investir mais no rastreio

Especialistas em cancro do colo do útero presen tes na Conferência Internacional sobre Papiloma vírus defenderam hoje a necessid ade de Portugal investir mais no rastreio à doença e na certificação da qualidad e dos exames laboratoriais que o suportam.

Agência LUSA /

Em entrevista à agência Lusa à margem do encontro, que decorre em Praga até quinta-feira, Fernando Xavier Bosch, do Instituto Catalão de Oncologia, e E duardo Franco, da Universidade McGill, em Toronto, sublinharam que médicos de fa mília e pediatras "têm de estar na primeira linha" da informação à população sob re o papel das primeiras vacinas contra o vírus que provoca o cancro do colo do útero, que deverão estar disponíveis dentro de meses.

As vacinas contra o Papiloma vírus (HPV), o agente associado ao cancro do colo do útero, e as questões éticas, médicas e técnicas que a sua administraç ão levanta têm sido o tema central desta 23º Conferência, promovida pela Socieda de Internacional do Papiloma vírus.

Sobre a articulação desta nova terapêutica de profilaxia com o rastreio à doença - que mata anualmente cerca de 200 portuguesas e é a segunda causa mai s comum de cancro na mulher, a seguir ao da mama -, Fernanco Xavier Bosch realço u à agência Lusa que, "em Portugal, é muito importante que se tomem decisões" so bre este instrumento de detecção.

O rastreio da doença é realizado através do exame Papanicolau, que cons iste na retirada de células do colo do útero e posterior exame laboratorial, par a identificar a presença do vírus, que é transmitido entre homens e mulheres por via sexual.

Portugal não possui um programa nacional de rastreio ao cancro do colo do útero, embora este exame seja realizado por ginecologistas e alguns médicos d e família, com formação específica.

"Neste momento o rastreio pode ser muito mais eficaz [na prevenção da d oença] porque não há outra forma de saber se a mulher é ou não portadora do HPV" , explicitou Xavier Bosch.

O especialista catalão alertou também para a necessidade de o rastreio passar a ser virológico, identificando simultaneamente a presença do HPV e qual o seu tipo viral, uma vez que nem todos os tipos de HPV estão associados ao canc ro do colo do útero.

Xavier Bosch explicou que "o rastreio virológico já é feito nalguns paí ses, nomeadamente nos Estados Unidos e em algumas partes de Espanha, e converteu -se na norma em casos de citologias anormais [que detectam a presença do HPV ou de lesões], para saber se a mulher possui ou não um HPV de alto risco".

Embora reconheça que adaptar as estruturas de saúde ao exame virológico possa ter custos elevados, Xavier Bosch contrapôs que "se é uma tecnologia mais eficaz, a relação entre os gastos e os benefícios é mais favorável".

Partilhando da mesma opinião, o brasileiro Eduardo Franco acrescentou a inda que Portugal tem também de começar a preocupar-se com "a qualidade das cito logias".

"Não há um sistema nacional de controlo de qualidade, pois [os exames c itologógicos] estão nas mãos de laboratórios privados", censurou o especialista, advertindo que o país "tem de fazer uma discussão ampla sobre o HPV".

Até porque, advertiu, com a entrada das vacinas no mercado, e antecipan do que "as decisões sobre a sua comparticipação [pelo Estado] vão demorar ainda muito tempo", o rastreio continua a ser a forma mais eficaz de prevenir o aparec imento deste cancro, que pode ser curado quando detectado a tempo.

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