Portugal tem mais de 4.500 marcas no território que servem para medir a altitude
Redação, 25 jul 2020 (Lusa) - O território português possui mais de 4.500 marcas, localizadas nas principais estradas e em vilas e cidades, que compõem a Rede Nacional de Nivelamento Geométrico de Alta Precisão, permitindo medir a altitude em qualquer ponto do país.
Este sistema foi criado a partir de 1938, com a colocação da marca de nivelamento principal original (NP 1) à entrada da cidadela de Cascais - uma inscrição metálica quadrada, que não chega a ter 10 centímetros de lado, chumbada na pedra. Esta é a referência para todas as restantes, explicam especialistas da área.
Em declarações à agência Lusa, o vereador da Ciência e do Conhecimento na Câmara Municipal de Viana do Castelo, o geólogo Ricardo Carvalhido, argumentou que conhecer a altitude absoluta de um objeto é um "exercício fundamental em várias tarefas humanas".
"Não se constrói uma ponte ou uma barragem sem este referencial, mas também não se consegue conhecer de que forma o clima ou o nível do mar foi evoluindo ao longo do tempo", referiu.
O também investigador do Centro de Ciências da Terra da Universidade do Minho usou as várias marcas da Rede de Nivelamento Geométrico de Alta Precisão existentes em Viana do Castelo para os trabalhos de doutoramento, juntamente com outros sistemas da rede geodésica portuguesa "para poder determinar a evolução do clima e do nível do mar do noroeste peninsular e ao longo dos últimos 400 mil anos".
A marca de nivelamento principal NP 27, localizada na soleira da estação de caminhos-de-ferro de Viana do Castelo, juntamente com outra, de outro tipo, que está na escada de acesso à ponte Eiffel, na mesma cidade do Alto Minho, serviram de instrumento de trabalho a Ricardo Carvalhido na classificação do Alcantilado de Montedor como monumento natural.
Neste sítio natural "estão preservadas as praias ancestrais" de há 410 mil anos, 330 mil anos e 220 mil anos, localizadas, respetivamente 18 metros, 13 metros e oito metros acima do nível do mar, que, em Viana do Castelo, está referenciado cerca de oito centímetros abaixo do nível do mar de Cascais.
Ouvido pela Lusa, o comandante Pinto da Silva, chefe da Brigada Hidrográfica do Instituto Hidrográfico da Marinha, explicou, por seu turno, que o nível médio do mar referenciado em Cascais é "um nível médio adotado" para ficar "fixo no tempo" e dar a referência altimétrica para Portugal.
Assim, foi elaborado um trabalho a nível nacional, ao longo do último século, que "transportou" a cota referenciada em Cascais para outras marcas que "têm outra altitude", disse Pinto da Silva.
Segundo o engenheiro hidrógrafo, as marcas de nivelamento principal foram colocadas em locais que "ficam perenes no tempo" - como igrejas ou monumentos, entre outros - e quem precisa de fazer uma determinada medição "com precisão vê qual é a marca associada mais perto".
Além das marcas de nivelamento principal, que são cerca de três centenas, a rede inclui milhares de outras, as chamadas rodas ou pontos coordenados, que são "moedinhas pequeninas com a data", sensivelmente do tamanho de uma moeda de cinco cêntimos, frisou o chefe da Brigada Hidrográfica. .
Estas, existentes aos milhares - por exemplo, na Estrada Nacional 109, entre a Figueira da Foz e Aveiro, existe uma roda a cada dois quilómetros - permitem fazer a medição da altitude "com grande precisão, de milímetros", revelou.
Porém, ao contrário das marcas de nivelamento principal, que existem imutáveis há dezenas de anos, os pontos coordenados, até pela sua localização, são várias vezes "apagados" da rede, por obras públicas em estradas ou cais de acostagem, entre outras intervenções.
A página internet da Direção-Geral do Território possui um mapa interativo que permite conhecer a localização de todas as marcas existentes, embora algumas, nomeadamente as pequenas rodas, estejam referenciadas em locais que já não existem.
Na Figueira da Foz, uma das pequenas moedas é localizada junto ao desaparecido posto da Polícia de Viação e Trânsito (antecessora da Unidade Nacional de Trânsito da GNR), num local hoje ocupado pelo cais comercial e onde desembocava a também desaparecida ponte entre as duas margens do Mondego, retirada na década de 1980 após a construção da ponte Edgar Cardoso.
Na mesma página, a Direção-Geral do Território sustenta que a Rede Nacional de Nivelamento Geométrico de Alta Precisão "é a infraestrutura que constitui o sistema de altitudes rigorosas oficial para o território nacional, servindo, por isso, de apoio aos mais diferentes tipos de projeto", como vias de comunicação, obras de arte, planos de pormenor ou construção de barragens.