Portugal tem mais de 600 acordos de geminação
Os municípios portugueses têm mais de 600 geminações ou acordos de cooperação com mais de 50 países, mas a grande maioria está desactivada por falta de projectos, de acordo com contactos junto das autarquias feitos pela Lusa.
Além das 81 geminações entre cidades ou vilas portuguesas, os municípios estabeleceram ao longo das últimas quatro décadas pelo menos 608 geminações ou acordos de cooperação com 52 países, segundo os dados disponíveis no site da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP).
França, com 160, lidera a lista de países com quem Portugal tem mais geminações, seguindo-se Espanha e Cabo Verde (65 cada) e Brasil (46).
Em Portugal, Lisboa é o município com mais geminações e acordos de cooperação estabelecidos (30), surgindo depois Coimbra (20), Santarém (14), Porto (13), Funchal (12) e Cascais (10).
Apesar da quantidade, muitas destas ligações não estão activas, disse à Lusa fonte da ANMP, que sublinhou que as alterações políticas nos executivos camarários acabam por ditar o enfraquecimento das ligações.
Outras razões que levam a uma diluição das relações entre os dois lados são as diferenças políticas entre os municípios.
A câmara de Cascais reconhece que muitas das suas geminações estão desactivadas, na maioria dos casos "devido à distância entre os municípios, designadamente com as cidades chinesas e japonesas", disse à Lusa o vereador com o pelouro das Relações Internacionais, João Sande e Castro.
Tal como outros municípios, Cascais aposta sobretudo nas suas geminações com os Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) - Cidade de Santana em São Tomé e Príncipe, Sal em Cabo Verde e Xai-Xai em Moçambique, a quem dá mais apoio do que recebe.
Quanto aos projectos em curso, o vereador destaca o apoio da câmara de Cascais na construção de um escola em Xai-Xai, de um recinto desportivo na ilha do Sal e ainda a elaboração de um projecto para o abastecimento de água na cidade de Santana.
A primeira geminação que Cascais estabeleceu foi com Biarritz, e é outra das mais activas, tendo em conta a ligação histórica das duas estâncias balneares e o facto do Estoril ter sido construído à imagem da cidade francesa.
Anualmente há intercâmbio de jovens, uma iniciativa que João Sande e Castro diz ser uma "excelente oportunidade para os jovens terem uma visão internacional, além de viajarem".
Também a câmara do Funchal reconhece que há geminações muito distantes e por isso praticamente impraticáveis, nomeadamente com Livinstone, na Zâmbia ou com Marrickville e Fremantle na Austrália.
Em declarações à Lusa, o vice-presidente da autarquia, Bruno Pereira, frisou que, por exemplo, não há sequer qualquer registo de troca de actividades no âmbito da geminação com Livinstone, não conseguindo sequer "fundamentá-la".
Para evitar geminações que não passem do papel, Bruno Pereira disse que a autarquia está a ser "mais criteriosa", apesar do grande número de municípios que procuram estabelecer relações com o Funchal.
O responsável camarário destaca a geminação que o seu município tem com Leishlingen, na Alemanha, fruto de uma ligação muito forte e que já dura há 20 anos, entre corporações de bombeiros e que se nota, nomeadamente na toponímia das duas cidades.
No âmbito desta geminação, todos os anos, 10 alunos vão a Leishlingen para aí frequentarem um ano lectivo e vice-versa.
"Para a câmara esta é a melhor forma de dar formação cultural e abrir horizontes aos jovens", disse.
As outras geminações que o Funchal possui "só funcionam pontualmente", apesar de estarem relacionadas com a diáspora e existirem por isso relações muito fortes.
Bruno Pereira sublinhou ainda a originalidade da última geminação estabelecida, há cerca de um mês, com o arquipélago, agora região autónoma, de Juju, na Coreia do Sul.
Trata-se de um geminação regional, referiu o autarca, explicando que a autarquia sul-coreana quis autonomizar-se da Coreia do Sul, elaborando para isso um trabalho de pesquisa junto de outras regiões autónomas no mundo, tendo seleccionado o caso português dos Açores e Madeira.
Caso contrário ao Funchal e a Cascais, a câmara de Lisboa diz ter todas as suas geminações e protocolos de cooperação e amizade activos.
Contudo, a responsável pelo Departamento de Relações Internacional da Câmara de Lisboa, Cristina Rocha, referiu que as ligações mais activas são, à semelhança de Cascais, com os PALOP, onde a "colaboração é quase unidireccional, de Lisboa para lá".
Esta responsável dá como exemplo os protocolos recentes com Praia (Cabo Verde) e Bissau (Guiné-Bissau) para a reabilitação da Avenida Cidade de Lisboa e ampliação da escola de Bissau, respectivamente.
Cristina Rocha frisou também, à semelhança do que se passa com o Funchal, que há muitos pedidos de geminação.
"Nós começamos por realizar protocolos de cooperação e amizade e só se as coisas funcionarem é que avançamos para geminações", explicou.
Fonte da ANMP disse à Lusa que as geminações já não se traduzem apenas no intercâmbio de ranchos folclóricos e equipas de futebol, pois actualmente procura-se que tenham um conteúdo mais económico.
"Era bom que se aproveitasse o chapéu das geminações, que tornam as relações mais simplificadas e desburocratizadas, para impulsionar a componente económica dos municípios envolvidos", disse esta fonte.
O vereador da câmara de Cascais João Sande e Castro entende que essa é uma preocupação, mas que é difícil porque "os grandes interessados em investir, utilizam outros recursos que não os municipais".
Quanto às justificações das geminações, fonte da ANMP frisou que os municípios têm objectivos diferentes e que não há um critério rígido para estabelecer um protocolo de geminação, apesar de um grande número estar relacionado com aspectos culturais.
A figura das geminações surgiu após a II Guerra Mundial com o intuito de estabelecer laços de amizade entre países desavindos de forma a prevenir novos conflitos.