Portugueses aderem às máquinas de fazer pão em casa

Deita-se uma mistura de cereais e fermento, junta-se água e programa-se para a hora do pequeno-almoço. Depois, é só comer pão quentinho acabado de fazer.

Agência LUSA /

Só nos últimos meses, foram vendidas em Portugal milhares de máquinas eléctricas de fazer pão em casa, mas este novo electrodoméstico vai estar ausente do Festival Europeu do Pão, que começa hoje no Porto, organizado pela associação industrial do sector.

"Começámos a vender máquinas de fazer pão em meados do ano passado. No primeiro lançamento, esgotámos o stock de 2.000 máquinas em seis meses. Este ano lançámos dois modelos novos que estão a ter uma boa aceitação", disse à agência Lusa Clarisse Fernandes, da SEB Portugal, represente da marca Tefal.

Marco Vieira, da Aries Lusitania, filial portuguesa das marcas Kenwood e Ariete, referiu à Lusa que a empresa vende por ano "centenas" de máquinas de fazer pão.

"Ainda é um mercado um pouco emergente. Começámos em 2004 e este ano temos quatro máquinas, uma da Ariete e três da Kenwood. Não tenho números precisos, mas estamos a vender centenas de máquinas por ano", afirmou Marco Vieira, salientando que "já há muita concorrência" neste subsector.

Clatronic, Alaska e Bifinett são outras marcas de máquinas de fazer pão à venda em Portugal, podendo ser encontradas por cerca 50 euros nalgumas lojas de electrodomésticos e, esporadicamente, em cadeias de supermercados.

"Um dos principais motivos porque comprámos a máquina foi o alarido, infundado, acho eu, sobre o aumento do preço do pão", disse à Lusa Ana, uma das cinco habitantes de uma casa de Viseu à porta da qual o padeiro deixou há três meses de colocar diariamente um saco de pão.

"Para mim era bem mais prático chegar ao portão do jardim e recolher simplesmente o saco que o padeiro deixava todas as manhãs, mas a maior parte das vezes não se comia. E uma coisa que já é tão cara ia para o lixo. Achei que não estava correcto", salientou.

Pelas contas de Ana, o custo das farinhas e fermento e da electricidade faz com que o pão caseiro fique "ao mesmo preço ou um nada mais caro" do que o das padarias, mas, em contrapartida, "nunca se deita pão fora", porque só se confecciona quando é necessário.

"É prática. Os ingredientes são colocados na cuba, programamos para quando necessitamos, `et voilá`, pão quente à hora certa", realçou, acrescentando que é possível fazer vários tipos de pão ou utilizar a máquina só para amassar e fermentar, cozendo-se a seguir o pão no forno.

Ana salientou que "há uma certa dificuldade em encontrar fermentos, mas procurando, muito, sempre se encontra".

Alguns supermercados vendem embalagens de diferentes misturas de cereais e fermento, a que apenas basta juntar água nas quantidades referidas no manual da máquina.

A partilha de experiências e a troca de receitas já levou à criação na Internet de sites (http://www.maquinadepao.com/ e fóruns de discussão (http://www.petiscos.com/smf/index.phptopic=3806.0) que funcionam como pontos de encontro de utilizadores das máquinas de pão.

A Editorial Estampa também já lançou um "Manual de Receitas de Pão", com sugestões para as máquinas eléctricas caseiras.

Apesar do aumento da procura por parte dos consumidores, nenhuma destas máquinas vai estar presente no Festival Europeu do Pão, que começa hoje no Palácio de Cristal, no Porto.

António Fontes, dirigente da Associação dos Industriais de Panificação, Pastelaria e Similares do Norte, organizadora do festival, disse à Lusa que o evento visa promover o consumo do pão feito "com métodos tradicionais desde o século II ou III".

Na opinião de António Fontes, as máquinas domésticas "não ameaçam o sector", porque "o pão é de menor qualidade" e o preço final não é competitivo.

"A questão está no processo, no amassar da massa", afirmou o industrial, reconhecendo que muito do pão que é actualmente consumido, nomeadamente o das chamadas lojas de "pão quente", também não respeita os métodos tradicionais.

António Fontes negou que esteja a haver aumentos exagerados do preço do pão, sublinhando que as actualizações se devem aos custos acrescidos que as panificadoras têm, nomeadamente na compra dos cereais e no gasóleo para as carrinhas de transporte, cujo preço "nos últimos quatro anos subiu 56 por cento".

"Essas máquinas domésticas vêm introduzir mais alguma perturbação no sector. Até entendo que é muito deselegante a comercialização dessas máquinas, porque as pessoas nem sabem o rigor que tem de se ter na confecção do pão", sublinhou.

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