Portugueses criam máquina que ajuda no estudo da doença dos dactilógrafos

Três investigadores portugueses criaram uma máquina que regista o carregamento dos dedos no teclado de um computador, permitindo aos ortopedistas ingleses estudar melhor a síndrome do túnel cárpico, uma doença das mãos e pulsos que afecta dactilógrafos.

Agência LUSA /

A máquina de teclar, "Key Stroke Analyser", foi encomendada, em Setembro d e 2005, pelo director do Serviço de Ortopedia da Enfermaria Real Albert Edward, de Wigan, no Reino Unido, tendo sido concebida numa parceria entre a Faculdade d e Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e a empresa de investigaç ão NGNS - Ingenius Solutions, com sede no "campus" universitário.

A entrega do protótipo, que custou cerca de dez mil euros, está agendada p ara 24 de Janeiro.

O modelo, composto por um teclado de computador, uma câmara de vídeo digit al e um computador, será usado pelo cirurgião no estudo da síndrome do túnel cár pico entre dactilógrafos profissionais.

Em declarações à Lusa, o coordenador do projecto, Pedro Vieira, explicou q ue o "Key Stroke Analyser" poderá ajudar os médicos "a saber que dedos carregam mais nas teclas", associando esse "padrão do teclar" ao aparecimento da doença, que pode ser causada, segundo os manuais de saúde, pelo uso prolongado do teclad o do computador.

A síndrome do túnel cárpico é considerada uma das doenças profissionais co m maior incidência no mundo, sobretudo nos Estados Unidos e Reino Unido, afectan do mãos e pulsos.

Em Portugal, de acordo com o ortopedista Luís Rodrigues, a doença está, em geral, associada a "trabalhos manuais em que há uso da força da mão ou moviment os finos", aparecendo em operários fabris ou cozinheiros.

Dormência nas mãos ou inchaço e dores nos pulsos são dois dos sintomas mai s frequentes da doença, que se deve à compressão de um nervo (mediano) do túnel cárpico (pulso) causada pela frequente flexão dos dedos, muitas vezes agravada p ela incorrecta posição dos pulsos.

Nos dactilógrafos profissionais, que chegam a escrever 60 palavras por min uto, segundo a equipa de investigadores portugueses, a síndrome do túnel cárpico pode surgir com maior predominância dadas as constantes e rápidas flexões dos d edos.

O "Key Stroke Analyser" foi elaborado para possibilitar o estudo estatísti co da utilização dos dedos durante a escrita de um texto.

Tem um teclado de computador assente numa base de madeira, para evitar que ele se mova, e uma câmara de vídeo digital que, ao filmar o teclado, capta os m ovimentos do paciente quando prime as teclas.

O teclado e a câmara estão integrados num suporte de iluminação próprio.

Na identificação dos dedos são usados colantes de quatro cores: vermelho, azul, branco e verde. São eles que permitem, depois, identificar quais os dedos que carregam mais vezes numa determinada letra do teclado.

Num computador, ligado ao suporte do teclado e câmara de vídeo, ficam regi stados, mediante um programa informático específico, os dados clínicos do doente , as imagens vídeo dos movimentos no teclado e o cálculo estatístico das teclas pressionadas por ambas as mãos do paciente.

O número de vezes com que é premida uma tecla por um determinado dedo, ide ntificado com uma cor distinta, é visualizado em gráficos.

"O aparelho permitirá identificar as diferenças no modo de teclar nas pess oas que estão doentes e nas que não estão", salientou Pedro Vieira, sócio da emp resa NGNS.

"O grau de eficácia é de 91 por cento", salientou, por seu turno, Nuno Pin to, recém-formado em Engenharia Electrotécnica, que integrou o projecto depois d e responder a um anúncio de Pedro Vieira, na Faculdade de Ciências e Tecnologia, pedindo colaboradores.

O jovem adiantou que o "Key Stroke Analyser" foi testado junto de programa dores informáticos na faculdade.

Formado em Engenharia Biomédica e co-fundador da NGNS, Pedro Vieira conhec eu, no Reino Unido, o director do Serviço de Ortopedia da Enfermaria Real Albert Edward, Raj Murali, quando preparava o seu doutoramento.

Há ano e meio cruzou-se novamente com o médico, que lhe perguntou se a fac uldade teria capacidade técnica para fazer o modelo de uma máquina que permitiss e avaliar como e com que dedos os dactilógrafos profissionais com síndrome do tú nel cárpico escrevem no teclado, para melhor estudar a doença. De acordo com Pedro Vieira, o "Key Stroke Analyser", projecto pioneiro "ma de in Portugal", estará pronto para ser usado em qualquer parte do mundo.

"Se houver clientes específicos, o produto está desenvolvido e os seus cus tos estão feitos", precisou.


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