Portugueses estudam na Rep Checa divididos entre a ambição e a saudade
As saudades da família e a barreira linguística são as principais dificuldades para os portugueses que estudam Medicina na República Checa, uma licenciatura que tem sido a alternativa para dezenas de estudantes de Portugal.
João Rato, de 19 anos, prepara-se para iniciar o segundo ano de Medicina na faculdade de Pilsen, cidade de 190 mil habitantes situada a 90 quilómetros de Praga.
Como não conseguiu entrar nesta licenciatura em Portugal, João Rato escolheu a República Checa para aprender Medicina, apesar de estar longe da família e do curso ser muito dispendioso, como contou à agência Lusa.
"Sinto falta da minha família e dos meus amigos a tempo inteiro, mas estar longe de Portugal fez-me crescer e ser responsável e independente", reconheceu este estudante setubalense.
No curso, que se destina apenas a alunos estrangeiros, João Rato convive com ingleses, neozelandeses, dos Emirados Árabes Unidos, da Índia, onde a língua franca é a mesma das aulas - o inglês.
Os estudantes têm, contudo, que aprender checo por causa das aulas práticas nos hospitais.
No dia-a-dia, João Rato diz que a maior dificuldade é mesmo a barreira da língua checa, embora isso não seja entrave para gostar da cidade, que compara com Coimbra pelo ambiente universitário.
Este caloiro elogia o nível de vida "mais barato que em Portugal", o sistema de transportes públicos, assim como "o civismo e o respeito que os checos têm pelas pessoas".
Por isso é que, terminados os seis anos do curso, ainda não decidiu se fica na República Checa, se regressa a Portugal ou se tira uma especialidade noutro país.
Sem qualquer bolsa de estudo, o curso de João Rato está a ser suportado pelos pais, que pagam a propina anual de 8.500 euros, além das despesas com alimentação e alojamento que podem chegar aos 800 euros por mês.
Com as saudades e com as avultadas despesas está já a contar Mário Diogo Ferreira, de 19 anos e natural de Lisboa, que se prepara para ingressar a 03 de Outubro, data de arranque das aulas, na faculdade de Medicina de Pilsen.
Mário Diogo Ferreira é um dos cerca de 40 caloiros portugueses que ingressam este ano naquele curso, por não terem conseguido nota para entrar em Portugal.
O aluno português, que quer especializar-se em pediatria ou cirurgia estética, vai estudar Medicina com a namorada, Inês, que o ajudará a suportar melhor as saudades de Portugal.
Dos seis anos de vida na República Checa já pode falar Gina Guerreiro, de 26 anos e natural de Faro, que terminou a licenciatura em Junho.
"Nunca me senti sozinha em Pilsen, porque estávamos todos nas mesmas condições e apoiávamo-nos uns aos outros", referiu a futura médica, recordando que tinha colegas gregos, americanos, suecos e paquistaneses.
Além disso, havia os encontros que a embaixada portuguesa na República Checa promovia com alunos portugueses que frequentavam cursos no programa Erasmus, em pós-graduações e mestrados.
Numa cidade como Pilsen, "mais industrial que Praga, conhecida pela cerveja e pela produção de automóveis Skoda", Gina Guerreiro sabia das novidades de Portugal através da Internet, porque não havia jornais portugueses, e pelos contactos telefónicos diários com a família.
Apesar dos longos meses de ausência, pontuados por visitas nas férias, Gina Guerreiro e João Rato não estão arrependidos da sua opção.
No final dos seis anos de licenciatura e de um investimento nos estudos que ultrapassa os 51 mil euros, muitos até hesitam entre um regresso a Portugal ou a continuação de uma carreira no estrangeiro.