Portugueses não declaram doenças transmitidas por animais

Os casos de doenças transmitidas por animais (zoonoses) em Portugal são pouco comunicados às autoridades, mesmo quando se trata das que são de declaração obrigatória, lamentou hoje Fátima Amaro, do Instituto Nacional de Saúde Pública Ricardo Jorge.

Agência LUSA /

"Muitas destas doenças estão sub-notificadas, nomeadamente as de declar ação obrigatória. As outras então nem se fala", afirmou à Agência Lusa em Viseu, onde hoje participou no colóquio "Zoonoses: ameaça invisível".

Fátima Amaro, que trabalha no Centro de Estudos de Vectores e Doenças I nfecciosas do Instituto Ricardo Jorge, frisou que doenças como a Febre Escaro No dular, a Borreliose de Lyme e a Febre Q "são de declaração obrigatória por algum motivo, para se saber a sua evolução em Portugal, se está a diminuir ou aumenta r, e que medidas devem ser tomadas".

Segundo a estudiosa, no que respeita a estas três doenças - cuja transm issão é feita pela carraça (no caso da Febre Q também por aerossóis e ingestão d e leite) - em Portugal "de certeza que há muitos mais casos do que aqueles que s ão notificados".

No entanto, a falta de esclarecimento da população e o facto de "muitos médicos também não estarem alerta" tem contribuído para que não sejam declarada s, afirmou.

"Por exemplo, no que respeita à Borreliose de Lyme, detectamos cerca de 20 a 30 casos por ano e em 2004 só foi notificado um caso", contou.

Se na Febre Escaro Nodular e na Borreliose de Lyme há sinais exteriores visíveis (uma escara e um eritema que vai alastrando, respectivamente), no caso da Febre Q isso não acontece, podendo a doença causar lesões nos pulmões.

Fátima Amaro disse à Lusa que estas zoonoses e outras estudadas no cent ro onde trabalha, "em potência podem todas levar à morte", mas quando são detect adas logo no início "conseguem-se controlar normalmente".

Considera, por isso, "muito importante o esclarecimento da população, q ue pode apresentar sinais que as leve imediatamente ao médico", e também uma mai or atenção destes profissionais aos sintomas.

Uma zoonose é, segundo a Organização Mundial de Saúde, uma doença ou in fecção que passa dos animais vertebrados para o homem.

Pode ser transmitida de forma directa, através de mordidelas e arranhad elas do animal infectado ou pelo contacto com as suas secreções, ou indirectamen te, através dos chamados vectores (carraças, mosquitos, ácaros, pulgas e roedore s), pela via alimentar ou aerossóis.

A investigadora disse à Lusa que há aquelas que podem mesmo ser "um pot encial agente de bio-terrorismo", como a Tularemia, que entra pela pele mesmo qu ando não há lesões, e a Febre Q.

"A sua transmissão faz-se por aerossóis. São partículas que ficam em su spensão no ar e é fácil criar formas de a difundir", explicou.

Durante o colóquio, Fátima Amaro contou que se supõe que as zoonoses te nham acompanhado a evolução do homem, havendo, por exemplo, referências à raiva em 2.300 antes de Cristo.

Estima-se que, em todo o Mundo, cerca de 62 por cento das doenças human as sejam transmitidas pelos animais, e que estas estejam a aumentar, devido, por exemplo, aos hábitos alimentares, à maior mobilidade de pessoas e animais, ao c ontacto mais frequente com animais selvagens e também a práticas agrícolas, como a reflorestação, que levam a alterações de habitat.

"São um problema grave, mas é necessário tomarmos medidas sem ser alarm istas", defendeu, referindo-se, nomeadamente, à criação de novos mecanismos de v igilância e à junção de vários sectores e disciplinas, como a medicina, a veteri nária, a biologia da população, a informação tecnológica, a economia, as ciência s sociais e o diagnóstico.

No Centro de Estudo de Vectores e Doenças Infecciosas duas das zoonoses mais estudadas são o Hantavirus e o Vírus West Nile, que já registaram casos em Portugal.

O Hantavirus é transmitido por aerossóis, por via respiratória, nomeada mente quando as pessoas varrem as excreções do roedor, enquanto que o responsáve l pelo Vírus West Nile é transmitido por um mosquito que actua à noite e gosta d e águas limpas.

Os organizadores do colóquio promovido pela Escola Superior Agrária de Viseu reservaram para a tarde o debate em torno da zoonose actualmente mais fala da: a gripe das aves.

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