Portugueses pagaram mais de 14 milhões de euros por uma esperança

Mais de 11.600 portugueses pagaram 14 milhões de euros desde 2003 para congelar o sangue do cordão umbilical dos filhos, mas a comunidade científica estima que apenas um em cada 20 mil "clientes" possa beneficiar desta prática.

Agência LUSA /

O interesse no sangue do cordão umbilical deve-se ao facto deste conter células progenitoras hematopoéticas, ou seja, com a capacidade de originarem sangue (glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas).

Por ter estas características, o sangue do cordão umbilical é utilizado no tratamento de cancros (como leucemia) e linfomas no sangue.

Em Portugal existem cinco empresas que oferecem às grávidas a possibilidade de retirar o sangue do cordão umbilical durante o parto e, posteriormente, congelá-lo.

O objectivo é a utilização deste sangue para a cura de doenças que entr etanto atinjam o nascituro e durante os seus futuros 18, 20 ou 25 anos, consoant e as empresas.

A Crioestaminal foi a empresa pioneira neste serviço em Portugal. Desde 2003, já procedeu à recolha de 10 mil amostras de sangue do cordão umbilical, s egundo disse à Lusa o responsável de comunicação da empresa.

O bioquímico adiantou que a Crioestaminal cobra 1.200 euros pelo serviç o, que inclui a disponibilização de um kit para a recolha do sangue e o seu tran sporte até um laboratório em Bruxelas, onde fica congelado por 20 anos.

De acordo com Luís Gomes, a empresa vai contar já a partir deste mês co m um laboratório no parque de biotecnologia (Bio Cant Park) de Cantanhede, evita ndo assim a deslocação para o estrangeiro.

A Crioestaminal assegura ainda que o sangue recolhido vai estar disponí vel sempre que for necessário para a cura de alguma doença, mas até agora não re gistou pedidos.

Apesar de nem todo o sangue recolhido ter o número de células necessári o para o caracterizar como viável, mais de 90 por cento das amostras têm-se reve lado aptas.

Criada em Julho de 2005, a Bioteca já recolheu 1.500 amostras de sangue do cordão umbilical.

Fonte da empresa disse à Lusa que a Bioteca cobra 115 euros pelo kit e 965 euros pelo transporte e congelação do sangue do cordão umbilical durante 20 anos, ou 1.235 euros pelo prazo de 25 anos.

A Bioteca congela o sangue do cordão umbilical num laboratório que disp õe no Instituto Superior Técnico (IST), tendo sido a primeira empresa a criopres ervar este material genético em Portugal.

Mais recentemente, a Cytotheca (grupo Medinfar) iniciou a sua actividad e neste ramo, tendo procedido à recolha e congelação de 150 amostras, desde Deze mbro de 2005.

Segundo a directora da Cytotheca, Silva Matos, a empresa cobra 115 euro s pelo kit e 1.100 pela criopreservação num laboratório do concelho da Amadora.

A Crioestaminal, a Bioteca e a Cytotheca já procederam ao congelamento de 11.650 amostras. Por este serviço, os pais pagaram 14.207.250 euros.

Além destas empresas, operam nesta área a "Futurhealth" e a "Bebévida".

Apesar do crescimento do número de empresas que se dedicam ao congelame nto de sangue do cordão umbilical em Portugal, a comunidade científica tem levan tado várias dúvidas, nomeadamente sobre a sua real aplicação no caso de doenças.

Em Novembro do ano passado, a Sociedade Portuguesa de Células Estaminai s e Terapia Celular (SPCE-TC) revelou que apenas uma em cada 20 mil pessoas que têm armazenadas células estaminais do cordão umbilical poderá utilizá-las para o tratamento de doenças.

Na sua tomada de posição pública sobre os bancos de células estaminais do cordão umbilical, a SPCE-TC refere que a utilização deste material genético t em, "à luz dos conhecimentos científicos actuais, uma utilidade restrita a um co njunto de patologias altamente específico".

De acordo com esta sociedade científica, o armazenamento do sangue do c ordão umbilical "só deverá ocorrer em locais e instituições licenciadas para o e feito", defendendo por isso "uma legislação clara neste domínio", uma vez que Po rtugal é um dos cinco países da União Europeia que não tem leis sobre a matéria.

O Grupo Europeu de Ética alertou, no ano passado, para o "engano" que é congelar células do cordão umbilical para a utilização futura do dador, já que são raríssimos os casos em que servem para tratar doenças.

Este órgão consultivo da Comissão Europeia especifica que "a probabilid ade de se precisar de um transplante autólogo [de tecidos provenientes do própri o dador] está estimada em aproximadamente um em cada 20 mil casos, durante os primeiros 20 anos de vida".

O Grupo Europeu de Ética indica também que "não foi ainda demonstrado q ue as células que se destinam a ser utilizadas em transplantes possam ser armaze nadas por mais de 15 anos".

Apesar da intensa investigação realizada nas células estaminais, partic ularmente sobre a sua aplicação em doenças como Parkinson, diabetes ou cancro, "não foi ainda demonstrada nenhuma prova evidente da [sua] utilidade".

Assim, é "altamente hipotético que as células do cordão umbilical manti das para utilização no dador tenham algum valor no futuro", frisa o Grupo Europeu de Ética.


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