Portugueses procuram fórmula mágica contra obesidade

Os portugueses recorrem cada vez mais às farmácias e às livrarias para conseguir a tão desejada "fórmula mágica" contra o excesso de peso que atinge já metade da população, revelaram à Lusa vários especialistas.

Agência LUSA /
Procuram-se milagres DR

A grande procura de produtos para perder peso e de livros sobre dietas deve-se muitas vezes à obsessão por um corpo esbelto, mas também ao facto de a obesidade ser um problema crescente de saúde em Portugal.

Dados da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade indicam que cerca de 15 por cento da população portuguesa entre os 18 e os 65 anos é obesa e 35 por cento tem excesso de peso.

Os produtos para emagrecer, com aparentes propriedades "milagrosas", têm vindo a aumentar nos últimos anos, mas podem ter consequências gravosas para os consumidores, alertam os especialistas.

Prometem-se "mundos e fundos" porque se sabe à partida que existem milhares de consumidores receptivos a uma boa promessa de perder rapidamente os inestéticos quilos, disse à Agência Lusa António Hipólito de Aguiar, farmacêutico e co-autor do livro "Emagreça! Perca gordura e ganhe saúde", lançado em Setembro e que já vai entrar na segunda edição.

"O número de pessoas que recorrem às farmácias tem vindo a crescer, assim como o número de obesos que tentam desta forma encontrar uma solução para o seu caso", adiantou o farmacêutico.

Esta opinião é partilhada pela endocrinologista Isabel do Carmo: "mais de metade da população tem peso a mais, motivo suficiente para haver uma grande procura de todos os produtos para perder peso", disse.

Autora de vários livros sobre emagrecimento, Isabel do Carmo alerta para a existência de vários produtos no mercado que foram admitidos como suplementos alimentares e que são perigosos para a saúde.

"As farmácias estão cheias de produtos que podem ter consequências gravosas para o utente", afirmou a nutricionista, em declarações à agência Lusa, salientando que a procura destes produtos vai manter-se porque "a tendência é para a obesidade aumentar".

A mesma fonte frisou que existem apenas dois produtos no mercado para o tratamento da obesidade - o Reductil e Xenical - aprovados pela autoridade portuguesa para o medicamento (Instituto Nacional de Farmácia e Medicamento) e que "tudo o resto é proibido na União Europeia".

Segundo explicou à Lusa o farmacêutico Hipólito de Aguiar, além daqueles medicamentos, há no mercado várias substâncias não medicamentosas utilizadas em regimes de perda de peso, como os inibidores de apetite e absorção intestinal, que são utilizados, não como tratamento contra a obesidade, mas sim como complemento do tratamento.

"Não somos fundamentalistas ao ponto de afirmar que tudo que existe no mercado não tem qualidade, mesmo não sendo medicamento, mas o que distingue um medicamento de outro produto é o processo de investigação e experimentação a que é sujeito e que pode demorar vários anos", referiu.

Hipólito de Aguiar referiu ainda a existência de casos de pessoas que, para perderem peso mais rapidamente, consomem doses superiores às recomendadas, o que pode ter consequências indesejáveis.

"As pessoas sentem que estão mais gordas ou obesas e sentem-se mal e a maior parte das vezes procuram soluções imediatistas como ir à farmácia e comprar um remédio milagroso, só em último caso é que procuram especialistas, e entre estes os mais populares", sublinhou.

"Muito médicos aconselham na óptica de que todas as pessoas conseguem emagrecer com um plano milagroso, mas todos nós somos diferentes", frisou o farmacêutico, alertando que estas dietas podem sair caro para o doente porque muitas vezes suprimem alimentos essenciais para o seu bem-estar.

Quanto às publicações sobre o tema, várias livrarias e editoras contactadas pela Agência Lusa confirmaram a grande procura pelos livros que dão conselhos sobre a melhor forma de emagrecer e há autores, como Isabel do Carmo e Paula Veloso, nutricionista, que são verdadeiros campeões de vendas.

Paulo Gonçalves, da Porto Editora, deu como exemplo o livro "Dietas sem Fazer Dietas", da nutricionista Paula Veloso, que já vendeu 30 mil exemplares.

Para Paulo Gonçalves, o próprio título do livro, além dos conselhos, já é um estímulo para as pessoas comprarem: "o facto das pessoas poderem emagrecer sem regimes muito rígidos já é uma compensação".

Adelaide Marques, da livraria Bertrand, adiantou que a procura destes livros tem vindo a aumentar, principalmente entre a população com idades entre os 45 e os 60 anos.

Disse ainda que as pessoas são muito influenciadas pela publicidade que é feita sobre os livros.

A editora D. Quixote publicou livros de Isabel do Carmo como "Saber emagrecer", "Doenças de comportamento alimentar" e "O livro das dietas" que são sucessos de venda.

"É uma campeã de vendas com várias edições publicadas", tendo contribuído para isso a ânsia das pessoas em ter uma vida melhor e mais saudável, salientou Rui Breda, do departamento de comunicação da editora D. Quixote.

Apesar de serem um sucesso de vendas, nem sempre as pessoas conseguem emagrecer com as "dicas" que são dada nestas publicações, conforme admitiu Isabel do Carmo.

"Algumas pessoas conseguiram emagrecer com o livro Saber Emagrecer, mas foram relativamente poucas", salientou a nutricionista, acrescentando que é muito difícil uma pessoa perder peso, mantê-lo e comer menos do que aquilo do que se gasta.

Hipólito Aguiar acrescentou que "a maioria das pessoas preocupa-se com o seu aspecto estético, mas o problema é que as pessoas comem mal, não só em quantidade, como em qualidade".

"É preciso haver disciplina nas refeições e saber quais são os bons e os maus alimentos", defendeu o farmacêutico.

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