"Praga" de piolho atinge metade das crianças portuguesas e afecta escolaridade

Cerca de metade das crianças portuguesas, de todos os estratos sociais, é anualmente contaminada com piolhos, parasita que pode provocar doenças na pele e nos olhos, afecta o rendimento escolar e ameaça tornar-se uma "praga", alerta um pediatra.

Helena Neves, da Agência Lusa /

"Actualmente a prevalência nas escolas portuguesas é elevadíssima, aproximando-se eventualmente do que os ingleses têm:

entre um terço e metade", adiantou o especialista Mário Cordeiro.

Para esta situação, contribui o "medo de falar do assunto", por muitas pessoas ainda pensarem que "ter piolhos é sinal de porcaria".

"Embora os portugueses tenham no seu vocabulário termos que incluam estes +animaizinhos+, alguns deles exprimindo carinho como +seu piolho encardido+, o que é certo é que este tema ainda pertence ao domínio dos tabus", salientou.

O pediatra adianta que a larga maioria dos miúdos já teve piolhos em algum momento da sua vida e não falar sobre o assunto "é contribuir para que a situação se eternize e infernize".

Por outro lado, o aumento mundial que recentemente se observou na infestação por piolhos acompanhou-se de alterações no que se refere à sua distribuição.

"Não é só nos bairros mais carenciados e nas crianças mais pobres que os piolhos aparecem, antes pelo contrário, as classes médias das zonas urbanas e os colégios particulares são alvo frequente dos ataques das hordas piolhais".

Os "pediculus humanus capitis" (nome científico), insectos chupadores de sangue que parasitam o couro cabeludo dos seres humanos, não olham a raça, sexo ou religião.

Reproduzem-se através de ovos e multiplicam-se rapidamente. Passam de pessoa para pessoa ou, se quiserem, de cabelo para cabelo, por contacto directo.

Os cabelos limpos e/ou curtos não constituem uma defesa contra os piolhos, "ao contrário do que se pensa. É bom os pais terem este facto presente", alertou o médico.

Além dos piolhos "parecerem uma porcaria e parecerem mal aos vizinhos e amigos, há outras razões para que se insista na desparasitação: a saúde das crianças", frisou.

Detectar um piolho vivo é difícil porque estes insectos são ágeis e movem-se rapidamente e o diagnóstico faz-se geralmente através da existência de lêndeas que são as cascas dos ovos dos piolhos - de cor branco nacarado, brilhante, agarradas aos cabelos.

Segundo o médico, quando a infestação é detectada já dura há muitas semanas.

"Como o cabelo cresce uma média de um centímetro por mês, e como as lêndeas não se movem, a altura a que elas estão da raíz do cabelo indica o número de meses", explicou.

Em Inglaterra, acrescentou, esse valor médio foi de quatro centímetros, ou seja, quando se identificou o problema nos miúdos, eles já tinham piolhos em média há cerca de quatro meses.

Os piolhos começam por morder a pele do escalpe e depois de morder e de chupar um pouco de sangue, defeca.

A mordidela não causa dor, mas como o piolho deita saliva quando morde, e essa saliva tem substâncias alergizantes, as pequenas feridas inflamam e a pessoa têm comichão, explicou Mário Cordeiro.

"As fezes que caem para a face e para os olhos podem causar dermatite (especialmente atrás das orelhas), conjuntivite e sintomas alérgicos oculares", adiantou.

Segundo o médico, muitas vezes estas doenças não são logo relacionadas com a parasitose porque os sintomas podem não ser evidentes e como as pessoas escondem o facto, não se sabe muitas vezes que na escola ou na creche há outras crianças infestadas.

As fezes do piolho podem ainda entrar na circulação sanguínea, causando uma doença generalizada, que se caracteriza por mal-estar e sensação de fraqueza.

Por outro lado, como a criança passa a noite a coçar-se, dorme mal e vai para as aulas ensonada, esse facto pode contribuir para a diminuição do seu rendimento escolar.

No que respeita às escolas, o especialista refere que cada estabelecimento deve ter as suas regras, mas lembra que "quando se descobre a infestação já a criança tem piolhos há muitas semanas".

Para prevenir a "piolhite aguda", Mário Cordeiro aconselha as pessoas a falar no assunto.

"Se discutirmos o assunto abertamente, sem timidez e sem medo dessas horríveis criaturas, faremos cair mais um tabu e, mais importante, contribuiremos para controlar uma +praga+ que ameaça tornar-se um problema de relevo nas crianças portuguesas", sublinhou Mário Cordeiro.

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