Prémio Bial distingue estudo sobre papel do microbioma no tratamento do cancro

Prémio Bial distingue estudo sobre papel do microbioma no tratamento do cancro

Um consórcio internacional de 48 investigadores, que estudou a importância do microbioma intestinal na eficácia da imunoterapia contra o cancro, venceu o Prémio Bial de Biomedicina de 2025, no valor de 350 mil euros.

Lusa /

A investigação agora premiada revelou que a flora intestinal saudável pode aumentar a eficácia da imunoterapia usada para combater o cancro, enquanto os antibióticos podem prejudicar o seu efeito ao reduzirem a microbiota intestinal, adiantou hoje a Fundação Bial, que promove a iniciativa.

O Prémio Bial de Biomedicina pretende distinguir um trabalho publicado nesta área de excecional qualidade e relevância científica e, em 2025, foi atribuído ao grupo de quase meia centena de investigadores ligados a instituições de França, Suécia e Estados Unidos.

Liderado por Laurence Zitvogel e Guido Kroemer, académicos franceses reconhecidos internacionalmente, o estudo foi publicado na revista Science em janeiro de 2018 e conta com mais de 5.800 citações científicas, refletindo o seu "impacto profundo e duradouro na investigação biomédica", salientou a fundação em comunicado.

Segundo referiu, a investigação premiada documenta "um dos maiores avanços recentes no tratamento de vários tipos de cancro", uma vez que estabelece que o microbioma intestinal -- o conjunto de bactérias que habitam o intestino -- tem um efeito determinante na eficácia da imunoterapia.

"A imunoterapia revolucionou a oncologia, ao permitir que o sistema imunitário volte a reconhecer e atacar as células tumorais, salvando a vida de muitos doentes que anteriormente não tinham alternativas terapêuticas eficazes", explicou a fundação.

Apesar desse avanço, mais de metade dos doentes desenvolvem resistência a estas terapias, com recorrência da doença por razões até agora pouco compreendidas.

"O estudo agora distinguido demonstra que o microbioma intestinal desempenha um papel central nessa resistência e que a sua modulação pode melhorar significativamente a resposta aos tratamentos e a sobrevivência dos doentes", avançou a fundação.

De acordo com o comunicado, os autores demonstraram ainda que o uso de antibióticos pode afetar negativamente a eficácia da imunoterapia, ao reduzir a diversidade da microbiota intestinal.

O estudo identificou espécies específicas de bactérias intestinais consistentemente associadas a uma resposta mais favorável ao tratamento, estabelecendo ligações causais através de experiências em modelos animais.

"Ao revelar o papel central do microbioma intestinal na resposta à imunoterapia, este estudo redefine a forma como pensamos os mecanismos de resistência ao tratamento do cancro. Trata-se de um avanço científico notável, que abre novas vias terapêuticas e ilustra de forma exemplar o poder transformador da investigação biomédica de excelência", realçou Ralph Adolphs, presidente do júri.

A edição de 2025 do Prémio Bial de Biomedicina contou com 58 trabalhos nomeados, provenientes de 18 países, abrangendo áreas como o cancro e as doenças infecciosas e neurodegenerativas.

Dois dos cientistas vencedores da edição de 2021, Katalin Karikó e Drew Weissman, foram distinguidos com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina 2023, pelas suas descobertas que permitiram o desenvolvimento de vacinas eficazes baseadas na tecnologia de mRNA para a covid-19.

A fundação foi criada em 1994 pela Bial, em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, com o objetivo de incentivar o estudo científico do ser humano e é gerida por representantes das duas instituições fundadoras.

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