Prémio Champalimaud distingue investigação que devolveu visão a cegos

Prémio Champalimaud distingue investigação que devolveu visão a cegos

Os investigadores Botond Roska e José-Alain Sahel desenvolveram terapias que utilizam a técnica optogenética e que permitem tornar sensíveis à luz algumas células fotorrecetoras na retina de pessoas cegas reativando-as.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Pedro A. Pina - RTP

O Prémio António Champalimaud Visão 2026 foi atribuído a dois investigadores num projeto inovador que permite devolver a visão a pessoas cegas. O valor do prémio é o mais elevado nesta área de investigação - 1 milhão de euros.

Botond Roska e José-Alain Sahel são pioneiros na criação de tecnologia destinada a recuperar a visão de pessoas com cegueira causada por doenças da retina.

As terapias optogenéticas permitem tornar sensíveis à luz células que permanecem funcionais, mesmo quando as células fotorrecetoras foram já destruídas pela doença. Ou seja, ajudam a retina a voltar a responder à luz e abrem a possibilidade de recuperar parcialmente a visão.

Depois de mais de 20 anos de trabalho num ensaio clínico com 10 pacientes os dois médicos trazem um sinal de esperança.

"Em modelos animais de degenerescências hereditárias da retina, a ativação de células ganglionares e bipolares da retina ou de cones fotorrecetores [responsáveis pela perceção das cores] "dormentes" permitiu restabelecer algum grau de função visual", refere a fundação em comunicado, acrescentando que, "mais tarde, estas abordagens foram testadas em ensaios clínicos em humanos, demonstrando ser possível recuperar parcialmente a visão em doentes".

Os investigadores receberam o Prémio Champalimaud 2026 esta térça-feira numa cerimónia que contou com a presença do presidente da República e do primeiro-ministro.

Em comunicado, a Fundação Champalimaud adianta que Botond Roska e José-Alain Sahel "estão entre os mais criativos e produtivos investigadores mundiais no desenvolvimento de tecnologias destinadas à recuperação da visão" e considera o seu trabalho "um exemplo notável de investigação translacional, ao ligar descobertas da biologia fundamental à prática clínica para desenvolver novas terapêuticas contra a perda de visão".

Cerca de 43 milhões de pessoas em todo o mundo são cegas e 295 milhões vivem com deficiência visual, muitas delas devido a doenças da retina e de degenerescência macular.

Mas, "apesar dos avanços científicos, continuam a ser escassos os tratamentos capazes de restabelecer uma visão funcional após a perda provocada por distrofias hereditárias da retina ou pela degenerescência macular da idade", situação que "Roska e Sahel ajudaram a mudar" ao longo de mais de duas décadas de trabalho, indica a Fundação Champalimaud.

Botond Roska, médico e investigador biomédico húngaro da Universidade de Basileia, na Suíça, é também diretor fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica, na mesma cidade. Neurobiólogo da retina, o cientista "identificou novas e complexas interligações neuronais essenciais à organização da visão na retina humana e animal" [...] "desenvolveu técnicas de mapeamento dos circuitos retinianos através de vírus transsinápticos e recorreu a métodos genéticos para introduzir canais iónicos sensíveis à luz nas células bipolares ON da retina".

José-Alain Sahel, oftalmologista e investigador francês da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos da América, e diretor fundador do Institut de la Vision, em Paris, França, realizou estudos pioneiros sobre a perda de visão causada pela neuropatia ótica hereditária de Leber (Leber Hereditary Optic Neuropathy - LHON), tendo demonstrado em ensaios clínicos que a expressão do gene mitocondrial ND4 pode prevenir a cegueira em doentes com esta doença.

O cientista "identificou também uma proteína fundamental da retina que promove a sobrevivência dos fotorrecetores do tipo cone, responsáveis pela visão diurna".

c/ Lusa

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