Primeiro parque natural de gestão local vai surgir em Vouzela
Vouzela, Viseu, 06 dez (Lusa) -- A Câmara de Vouzela tem em discussão pública a criação do primeiro parque natural de gestão local do país, que abrangerá 60% do território concelhio e que terá no nome referência ao Rio Vouga e à Serra do Caramulo.
"Áreas protegidas há várias no país e inspirámo-nos nalguns bons modelos que existem. Mas o primeiro parque natural de gestão local será este, gerido pelo município, com um conselho consultivo e com uma comissão diretiva", disse à agência Lusa o presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira.
O autarca contou que há já algum tempo havia a ideia de "definir e criar uma área protegida que albergasse tudo o que são os valores patrimoniais, ambientais e referências, num contexto não só local, mas também nacional e internacional".
O trabalho de inventariação que resultou no livro "Património natural -- árvores e florestas do concelho de Vouzela" (do biólogo Paulo Pereira, com fotografias de João Cosme), veio dar força e mais fundamento à ideia.
"Temos habitats privilegiados no contexto europeu que devem ser protegidos, dados a conhecer e valorizados", frisou Rui Ladeira, exemplificando que "três das árvores mais velhas do país estão em Vouzela".
Rui Ladeira aludiu ainda à importância dos loendros da Reserva de Cambarinho (onde se concentra 90% desta planta da época do Terciário existente em Portugal), à mata da Penoita, "que é floresta-modelo no contexto do Plano Regional de Ordenamento Florestal", e ao habitat de `Narcissus cyclamineus`.
"A existência destas espécies e de muitas outras levou-nos a criar um produto turístico, de valorização económica para as nossas comunidades e para o nosso território, que estivesse integrado numa área protegida", justificou.
A proposta que está em discussão pública até ao final do ano foi elaborada por colaboradores do município com ajuda da Montis, uma associação de conservação da natureza sediada em Vouzela.
Segundo a proposta, o futuro Parque Natural Vouga -- Caramulo terá 11.600 hectares (abrangendo todas as freguesias e pertencentes a baldios, privados, áreas comunitárias e juntas), mas o autarca prevê que esta área possa aumentar, atendendo ao interesse que mais entidades e privados têm demonstrado em o integrar.
Rui Ladeira avançou que este projeto deverá ser discutido e aprovado na primeira Assembleia Municipal de 2015 para, a partir daí, começarem "a ser introduzidas as políticas de dinamização do parque" e de "aprofundamento do conhecimento e valorização não só da conservação, mas também da vertente turística".
Este projeto encaixa também na política que a autarquia tem seguido ao nível dos desportos da natureza, nomeadamente no projeto do centro de BTT com 200 quilómetros de trilhos que deverá ser inaugurado em março e que "será o primeiro do distrito de Viseu homologado", acrescentou.
O autarca garantiu que, se por um lado há preocupações com a conservação da natureza, por outro, mantém-se o empenho na produção florestal.
"A produção florestal no nosso território sempre foi, é e vai continuar a ser uma prioridade, seja do carvalho, do pinheiro ou do eucalipto. Queremos continuar a ter estas produções como alavancas da economia local", frisou.
No entanto, haverá "uma gestão do território harmoniosa, de modo a que tudo possa estar articulado e devidamente trabalhado", seja ao nível da conservação, da produção florestal ou da oferta turística.
Rui Ladeira disse que a gestão do futuro parque natural não criará encargos ao município, uma vez que não haverá uma nova estrutura.
"Caberá ao executivo, aos engenheiros do ambiente, ao gabinete técnico florestal, ao pessoal do turismo, a toda esta equipa que já está a trabalhar e ajudou a preparar esta proposta a dinamização e operacionalização das políticas de gestão do parque natural", explicou.
Com o evoluir do processo, o autarca pretende chamar "parceiros, quer locais, quer nacionais, sobretudo para ajudar em projetos de dimensão nacional e internacional".