Professora de jovem arguido diz que não consegue "colá-lo" aos crimes contra o transsexual
Porto, 14 Fev (Lusa) - Uma das professoras do jovem que está a ser julgado no Porto, por alegada colaboração com 13 adolescentes nos maus-tratos ao transsexual Gisberto Júnior, disse hoje em tribunal que não consegue "colar" o arguido aos crimes que lhe são imputados.
Manuela Oliveira, que à data dos factos era docente do arguido Vítor S., actualmente com 18 anos, descreveu-o como um jovem "perdido, com falhas de referências".
Mas - garantiu - "não consigo colá-lo ao que ocorreu. Fiquei estupefacta".
Os maus-tratos a Gisberto Júnior (conhecido como Gisberta ou Gi) foram perpetrados em Fevereiro de 2006 no parque de estacionamento de um prédio inacabado, no Porto, onde o transexual - que ali vivia em estado de saúde agónico - viria a ser atirado pelos jovens para um fosso, morrendo por afogamento.
Perante o colectivo da 4ª Vara Criminal de São João Novo, no Porto, a professora Manuela Oliveira reiterou críticas anteriores à forma como a Oficina de São José lidava com os seus internos.
Essas críticas foram formuladas um ano antes dos factos, por escrito, à Diocese do Porto, entidade tutelar da instituição.
O juiz-presidente do colectivo, João Grilo, não permitiu, contudo, que a docente entrasse em detalhes já que, como lembrou, não é aquela instituição que está a ser julgada, mas um dos seus internos.
Vivaldo F., 24 anos, interno das Oficina de São José à data dos factos e hoje monitor, também depôs na sessão de hoje, assinalando alterações substanciais na forma como a instituição passou a actuar após a morte de Gi.
Ao contrário do que acontecia antes, cada responsável responde por um grupo restrito de internos e chega, inclusive, a funcionar como seu encarregado de educação.
As próprias saídas fora do horário escolar, que antes não eram aparentemente controladas, só são permitidas a maiores de 16 anos.
Januário Carvalho, actual director da Oficina de São José, mas não à data dos factos, descreveu Vítor S. como "influenciável".
"Bastante influenciável", corrigiu Irene Barata, assistente social na instituição e actual encarregada de educação do arguido, que também depôs na sessão de hoje.
Diogo, 17 anos, interno da Oficina, garantiu ao tribunal nunca ter ouvido falar do envolvimento de Vítor nos factos em julgamento.
Ele próprio assegura não se ter envolvido, mas assegurou que foi desafiado a fazê-lo por um colega que nomeou e com quem viria a incompatibilizar-se.
A testemunha disse que esse colega levou um lençol da instituição, pouco antes da morte de Gi, pelo que veio a associar os dois factos.
Contava-lhe o colega que se juntavam em grupo e que iam ter com Gi para lhe bater e para o gozar (no sentido de troçar).
"Aquilo, para eles, devia ser divertido", criticou.
Na primeira sessão do julgamento, realizada dia 07, o jovem arguido Vítor optou pelo silêncio e colegas já condenados no Tribunal de Família e Menores do Porto por co-envolvimento nos factos, foram unânimes a desvalorizar o seu papel no caso.
"Às vezes até separava, dizia para não baterem mais", garantiu um deles.
O rapaz é acusado de ofensa à integridade física qualificada (três crimes, cada um punível com três a 12 anos de prisão) e de um crime de omissão de auxílio, penalizado com prisão até dois anos ou multa.
O julgamento prossegue dia 28, às 14:00.