“Correr está mais na moda do que nunca”. É o que se ouve sobre as multidões que já aderiram à tendência de se reunirem diariamente nas avenidas, parques ou em provas oficiais. Nesta corrida pelo bem estar-físico e mental, Portugal teima, porém, em não sair das posições mais desanimadoras nas estatísticas europeias da atividade física, tendência que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) luta por atenuar há mais de uma década.
A Maratona de Lisboa integra, a partir deste ano, o grande circuito European Marathon Classics. É a confirmação de uma moda também portuguesa que chegou para ficar e que pode receber desde os mais aptos, àqueles que nunca consideraram resistir cerca de 42 quilómetros.
Em 2014, o desafio de colocar um país a correr parecia mais exigente, mas da dúvida e da parceria entre a Federação Portuguesa de Atletismo e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) nasceu o Programa Nacional de Marcha e Corrida (PNMC).
De acordo com o Eurobarómetro do Desporto e Atividade Física, publicado pela Comissão Europeia, 18 por cento dos portugueses diz praticar desporto com “alguma regularidade” e apenas quatro por centro “regularmente”, valores sempre abaixo da média na Europa.
A OCDE avançou com um estudo semelhante em 2025, ano em que mais de metade dos adultos em Portugal admitia não fazer exercício físico. A realidade que parece não abrandar é a de que são os mais jovens quem pratica o maior índice de atividade, enquanto 91 por cento dos homens e mulheres com mais de 55 anos se mantêm inativos.
Nos locais onde se juntam, definem o percurso e treinam, cada grupo de atletas é acompanhado por um técnico, “formado para receber qualquer pessoa que queira retomar ou continuar a atividade física dentro dos parâmetros saudáveis”, explica o dirigente da Federação Portuguesa de Atletismo. Só em Lisboa, são 21 os centros do PNMC criados nos últimos 12 anos. Mas entre a estratégia desenhada a nível nacional e a realidade vivida no terreno, há distâncias difíceis de encurtar e exigências nem sempre atendidas.
No centro municipal de Loures, o técnico Sérgio Arruda, que celebra 43 anos enquanto treinador de atletismo, lamenta que as promessas dependam “sempre dos apoios que as câmaras estão dispostas a dar” à Federação, que, posteriormente, gere as verbas consoante as condições de cada centro.
Às segundas, quartas e sextas-feiras, em Loures, o Centro de Marcha e Corrida, composto maioritariamente por atletas federados, que já treinavam em vários clubes nos arredores, reúne-se no Parque Urbano Adão Barata.
Com o acompanhamento de Sérgio Arruda, cerca de 60 pessoas – nunca em simultâneo, devido às incompatibilidades horárias – seguem o plano de treino adaptado especificamente às suas capacidades físicas, “com orientações para irem evoluindo”.
No último ano, o centro de Loures conquistou junto da Câmara Municipal uma hora por semana no Pavilhão Paz e Amizade, que, mesmo assim, nem sempre está assegurado.
Mas resolvida preocupação com os dias mais chuvosos, os atletas e técnicos continuam, ao longo dos últimos oito anos, a exigir mais segurança, contrariando a premissa de que “o atletismo ainda é visto como correr na rua”.
Sob o céu aberto da cidade, a primeira ciclovia que distingue a área de veículos de um espaço mais reservado, que os corredores optam por ocupar, só surge após o primeiro quilómetro fora do Parque Urbano Adão Barata.Ao silêncio que recebem como resposta, os atletas foram encontrando as próprias soluções. Quando cai a noite, há quem se torne um ponto luminoso a rasgar a escuridão – uma forma improvisada de se fazer ver e continuar a reclamar por espaços desportivos próprios.
Todos os anos, o Programa Nacional de Marcha e Corrida classifica os centros com a premiação simbólica do ouro, prata e bronze, consoante o desempenho de cada localidade. Para alguns técnicos do projeto, e no caso de Loures, a distinção pode tornar-se injusta, porque considera centros com condições “muito díspares”.
No país do futebol, o atletismo, por alguns considerado “o parente pobre no desporto”, corre quase sempre na sombra. Apesar de ser uma modalidade diversa e universal, continua a ocupar um lugar periférico no mapa dos apoios e da visibilidade, que surge como um reflexo do próprio número de atletas federados.
Um programa, vários ritmos
O PNMC chegou ao Lumiar, em Lisboa, em outubro de 2015, pelas mãos de Júlio Reis, que, ao conhecer o projeto, o apresentou à Câmara Municipal de Lisboa para que pudesse ser acolhido na Pista de Atletismo Municipal Professor Moniz Pereira. O professor de educação física e técnico do Programa de Marcha e Corrida de Lisboa treina, em média, 35 pessoas em simultâneo, com foco no principal objetivo de que “nenhum praticante treine só”.
“Aqui, o que se fala é de corrida e de qual é a próxima maratona”, esclarece Vasco Palma, de 64 anos, o mais antigo integrante do Programa de Marcha e Corrida de Lisboa, apoiado por Fernando Manuel, o mais velho do grupo: “O segredo para a energia é, exatamente, continuar a correr”.
Mas há quem ainda esteja a descobrir o próprio ritmo. Manuela Ramos voltou a praticar desporto quase quatro décadas depois desde a última vez que o fez. Nas visitas à pista para acompanhar de perto o sonho da filha de 15 anos, que aderiu ao atletismo no ano passado, Manuela reforçou o projeto do Lumiar em outubro, movida pela vontade de sentir o que antes acompanhava à distância.
Antes associada apenas ao rendimento e à competição, os mais de três mil atletas do PNMC provam diariamente que a corrida pode surgir de uma lógica de bem estar pessoal e de parceria, dando resposta positiva ao incentivo da medicina, uma dos maiores agentes divulgadoras da necessidade de haver atividade física.
Desde atletas experientes a estreantes tardios, o Programa Nacional de Marcha e Corrida (PNMC) transforma, apesar das limitações, a recomendação numa prática diária e cria condições para caminhar ou correr, e, em última instância, para ficar. Ficar mais saudável, ficar mais tempo, ficar em movimento.