Programa Nacional de Marcha e Corrida. "Há treino todos os dias"

Imagem e Edição: Nuno Patrício - RTP Créditos foto: Sebastião Barata

Programa Nacional de Marcha e Corrida. "Há treino todos os dias"

Ao nascer do sol ou já depois de um dia de trabalho, multiplicam-se as passadas nas ruas, por motivos de saúde ou num claro desafio aos índices de superação. Com 90 centros ativos, o Programa Nacional de Marcha e Corrida (PNMC) junta grupos por todo o país que queiram abandonar o mundo virtual e regressar à rua, simplesmente para aprender a correr.

“Correr está mais na moda do que nunca”. É o que se ouve sobre as multidões que já aderiram à tendência de se reunirem diariamente nas avenidas, parques ou em provas oficiais. Nesta corrida pelo bem estar-físico e mental, Portugal teima, porém, em não sair das posições mais desanimadoras nas estatísticas europeias da atividade física, tendência que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) luta por atenuar há mais de uma década.

A Maratona de Lisboa integra, a partir deste ano, o grande circuito European Marathon Classics. É a confirmação de uma moda também portuguesa que chegou para ficar e que pode receber desde os mais aptos, àqueles que nunca consideraram resistir cerca de 42 quilómetros.

Em 2014, o desafio de colocar um país a correr parecia mais exigente, mas da dúvida e da parceria entre a Federação Portuguesa de Atletismo e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) nasceu o Programa Nacional de Marcha e Corrida (PNMC).

Os últimos dados estatísticos oficiais sobre a prática desportiva são de 2022, quando 73 por cento dos portugueses afirmou nunca ter feito exercício físico, consolidando Portugal na posição de país menos ativo da Europa.

De acordo com o Eurobarómetro do Desporto e Atividade Física, publicado pela Comissão Europeia, 18 por cento dos portugueses diz praticar desporto com “alguma regularidade” e apenas quatro por centro “regularmente”, valores sempre abaixo da média na Europa.

A OCDE avançou com um estudo semelhante em 2025, ano em que mais de metade dos adultos em Portugal admitia não fazer exercício físico. A realidade que parece não abrandar é a de que são os mais jovens quem pratica o maior índice de atividade, enquanto 91 por cento dos homens e mulheres com mais de 55 anos se mantêm inativos.


Foi contra esta inércia que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) decidiu 'correr' atrás de quem tem tardado em entrar na voga, em resposta à urgência de uma essencial mudança de hábitos que promova a saúde pública.

A ciência confirma que o sedentarismo é uma das causas de maior risco de doenças cardiovasculares. O atual desafio já não é saber que é preciso mexer, mas conseguir fazê-lo, obstáculo que Paulo Guerra, vice-presidente da FPA, acredita estar a contornar, apesar dos índices de inatividade física “continuarem assustadores”.


Como construir um país em movimento
São mais de 110 centros inaugurados por todo o país e cerca de três mil pessoas a aderir ao Programa Nacional de Marcha e Corrida, que não só implementa as caminhadas e a corrida na rotina dos portugueses, como reforça o equilíbrio, a coordenação e a flexibilidade, pelo valor de um euro e meio mensal para ativação do seguro desportivo. 


Nos locais onde se juntam, definem o percurso e treinam, cada grupo de atletas é acompanhado por um técnico, “formado para receber qualquer pessoa que queira retomar ou continuar a atividade física dentro dos parâmetros saudáveis”, explica o dirigente da Federação Portuguesa de Atletismo.
 Só em Lisboa, são 21 os centros do PNMC criados nos últimos 12 anos. Mas entre a estratégia desenhada a nível nacional e a realidade vivida no terreno, há distâncias difíceis de encurtar e exigências nem sempre atendidas.

No centro municipal de Loures, o técnico Sérgio Arruda, que celebra 43 anos enquanto treinador de atletismo, lamenta que as promessas dependam “sempre dos apoios que as câmaras estão dispostas a dar” à Federação, que, posteriormente, gere as verbas consoante as condições de cada centro.
Em 2023, o financiamento nacional das Câmaras Municipais para atividades e equipamentos desportivos foi de 426,5 milhões de euros, um aumento de 16 por cento em relação ao ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística. A verdade é que, num universo também em crescimento de quase 800 mil atletas filiados em federações desportivas, os apoios dos municípios não deixam de se revelar escassos.



Às segundas, quartas e sextas-feiras, em Loures, o Centro de Marcha e Corrida, composto maioritariamente por atletas federados, que já treinavam em vários clubes nos arredores, reúne-se no Parque Urbano Adão Barata.
Créditos: Centro de Marcha e Corrida de Loures

Com o acompanhamento de Sérgio Arruda, cerca de 60 pessoas – nunca em simultâneo, devido às incompatibilidades horárias – seguem o plano de treino adaptado especificamente às suas capacidades físicas, “com orientações para irem evoluindo”.

No último ano, o centro de Loures conquistou junto da Câmara Municipal uma hora por semana no Pavilhão Paz e Amizade, que, mesmo assim, nem sempre está assegurado. 

Mas resolvida preocupação com os dias mais chuvosos, os atletas e técnicos continuam, ao longo dos últimos oito anos, a exigir mais segurança, contrariando a premissa de que “o atletismo ainda é visto como correr na rua”.
Entre os vários centros existentes no país, em Loures não há pavilhões, ginásios para reforço muscular ou uma pista destinada ao programa. Do parque da cidade, o grupo segue para a estrada, onde divide o espaço disponível com o trânsito e enfrenta condições que nem sempre garantem segurança.

Sob o céu aberto da cidade, a primeira ciclovia que distingue a área de veículos de um espaço mais reservado, que os corredores optam por ocupar, só surge após o primeiro quilómetro fora do Parque Urbano Adão Barata.Ao silêncio que recebem como resposta, os atletas foram encontrando as próprias soluções. Quando cai a noite, há quem se torne um ponto luminoso a rasgar a escuridão – uma forma improvisada de se fazer ver e continuar a reclamar por espaços desportivos próprios.

Todos os anos, o Programa Nacional de Marcha e Corrida classifica os centros com a premiação simbólica do ouro, prata e bronze, consoante o desempenho de cada localidade. Para alguns técnicos do projeto, e no caso de Loures, a distinção pode tornar-se injusta, porque considera centros com condições “muito díspares”.

No país do futebol, o atletismo, por alguns considerado “o parente pobre no desporto”, corre quase sempre na sombra. Apesar de ser uma modalidade diversa e universal, continua a ocupar um lugar periférico no mapa dos apoios e da visibilidade, que surge como um reflexo do próprio número de atletas federados. 




Um programa, vários ritmos
O PNMC chegou ao Lumiar, em Lisboa, em outubro de 2015, pelas mãos de Júlio Reis, que, ao conhecer o projeto, o apresentou à Câmara Municipal de Lisboa para que pudesse ser acolhido na Pista de Atletismo Municipal Professor Moniz Pereira. O professor de educação física e técnico do Programa de Marcha e Corrida de Lisboa treina, em média, 35 pessoas em simultâneo, com foco no principal objetivo de que “nenhum praticante treine só”.

Na pista que recebe todos os atletas de Lisboa federados, o projeto comandado por Júlio Reis dispõe de condições muito diferentes dos vizinhos de Loures. A prioridade é o conforto das infraestruturas, a segurança da corrida e a qualidade do reforço e do treino mais técnico de preparação para a competição.

Créditos: Centro Marcha e Corrida de Lisboa  

“Tudo conta para que as pessoas continuem a treinar”, sublinha o técnico. E, ali, conta também o acesso a balneários, ao ginásio de apoio e a material técnico. 

Num espaço onde o treino é feito com marcações no tartan e não entre carros, convivem diferentes objetivos, entre os que dão os primeiros passos na corrida e quem já pensa em mínimos e nos calendários competitivos. Sejam estreantes ou atletas com anos de experiência, o programa desenha-se, essencialmente, na partilha.

“Aqui, o que se fala é de corrida e de qual é a próxima maratona”, esclarece Vasco Palma, de 64 anos, o mais antigo integrante do Programa de Marcha e Corrida de Lisboa, apoiado por Fernando Manuel, o mais velho do grupo: “O segredo para a energia é, exatamente, continuar a correr”.

Mas há quem ainda esteja a descobrir o próprio ritmo. Manuela Ramos voltou a praticar desporto quase quatro décadas depois desde a última vez que o fez. Nas visitas à pista para acompanhar de perto o sonho da filha de 15 anos, que aderiu ao atletismo no ano passado, Manuela reforçou o projeto do Lumiar em outubro, movida pela vontade de sentir o que antes acompanhava à distância.

Cada chegada começa com a perceção da capacidade física de cada novo atleta, a partir do qual os treinadores distribuem diferentes ritmos e expectativas pelos grupos. A lógica não é selecionar os mais fortes, mas enquadrar todos na pista, fora das próprias casas e da monotonia da rotina diária.

Lado a lado, os membros do centro de Marcha e Corrida de Loures juntam-se para a prática desportiva coletiva, vindos de diferentes clubes do concelho. Anabela Carvalho esteve na criação do programa no município, ao qual se juntou depois de 20 anos no atletismo federado. Com um percurso distinto, Anabela Vinha começou a correr sozinha durante o isolamento obrigatório em 2020, porque “caminhar não parecia suficiente”, quando decidiu experimentar o treino em conjunto.


O que começou por brincadeira depressa ganhou outro significado. Hoje, mais do que uma rotina, o desporto é uma extensão do próprio ADN da atleta de 44 anos que já alcançou bons resultados no atletismo feminino.

Antes associada apenas ao rendimento e à competição, os mais de três mil atletas do PNMC provam diariamente que a corrida pode surgir de uma lógica de bem estar pessoal e de parceria, dando resposta positiva ao incentivo da medicina, uma dos maiores agentes divulgadoras da necessidade de haver atividade física.

Desde atletas experientes a estreantes tardios, o Programa Nacional de Marcha e Corrida (PNMC) transforma, apesar das limitações, a recomendação numa prática diária e cria condições para caminhar ou correr, e, em última instância, para ficar. Ficar mais saudável, ficar mais tempo, ficar em movimento.