Projecto "Recriar o Futuro" ensina idosos que há vida depois da reforma

Odivelas, 23 Set (Lusa) - Sintomas de depressão e de falta de auto-estima na transição da vida activa para a reforma são alguns dos problemas que a Junta de Odivelas quer prevenir, tendo lançado um programa de formação para idosos.

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A iniciativa Recriar o Futuro, lançada pela Junta de Odivelas, ajuda os reformados a ultrapassar esta fase, promovendo um envelhecimento activo e participativo e incluindo um plano de formação.

A iniciativa surgiu no inicio do mês de Setembro deste ano e destina-se à população que se prepara para entrar na reforma, ou que já está reformada.

"Preparar os formandos a romper com a entidade empregadora e ajudá-los a criar um projecto de vida pós-reforma é o principal objectivo deste programa", explicou à Lusa a coordenadora e formadora Ana Filipa Dâmaso.

Esta responsável conta que "as pessoas chegam um pouco desmotivadas a este programa, mas que o facto de quererem participar é já por sim um sinal de que acreditam que ainda "têm muito para dar".

"Elas precisam de muita auto-estima e de ver o seu trabalho valorizado", explica.

Celeste Rodrigues e Lucinda Tavares são duas das alunas que participam neste plano de formação. As motivações para participar neste programa são semelhantes: "estar ocupada", " necessidade de convívio" e "libertar o stress".

Ambas frequentam aulas de informática, música, ginástica e artes plásticas, no centro de dia de Odivelas. Dizem que "a idade está na cabeça das pessoas" e que não conseguem estar paradas.

"Gosto muito de me dedicar às coisas e de estar sempre a aprender. Costumo dizer que parar é morrer", conta Celeste Rodrigues de 64 anos.

Celeste Rodrigues trabalhou durante 43 anos na Central de Cervejas, onde começou com apenas 18 anos. "Um trabalho de homens como define, mas feito sempre com muito empenho"

"Nunca fui descriminada por ser mulher até porque fazia o mesmo trabalho que qualquer um dos trabalhadores fosse homem ou não", recorda.

"Optimista por natureza", esta reformada conta que aceitou "com naturalidade o final da vida activa".

"Acho que temos de abraçar as novas experiências e encará-las com a maior naturalidade possível, até porque há coisas que são irreversíveis", salienta.

Celeste Rodrigues considera que a sua participação neste curso foi gratificante, porque além de ter aprendido coisas que não sabia, como informática, teve oportunidade de explorar as suas capacidades para o desenho.

"Sempre gostei muito de desenhar e de fazer trabalhos manuais, conta enquanto mostra orgulhosa um dossiê onde traz arquivado os trabalhos que fez durante a formação.

Lucinda Tavares, uma antiga empregada de balcão de 61 anos, é outra das alunas deste curso. Conta à Lusa que sofre de uma depressão e que a participação neste programa tem tido um efeito terapêutico.

"Conviver com estas pessoas dá-me muita estabilidade emocional. Às vezes sinto-me melhor aqui do que em minha casa", conta

Lucinda garante que não sentiu dificuldades em entrar na reforma, e que até vê vantagens, porque agora pode "fazer coisas que antes não tinha tempo de fazer".

"Posso descansar e passear para onde me apetece sem ter preocupações de horário", refere

Ao contrário de Celeste, Lucinda mostra o seu dossiê com alguma vergonha e chega mesmo a desvalorizar o seu trabalho garantindo que não o mesmo jeito que a colega.

"Sou muito trapalhona e por isso isto acaba por ser uns rabiscos", comenta sorrindo.

Helena Paiva, socióloga e uma das formadoras deste programa, garante que a diferença entre a vida activa e a da reforma não é nenhuma e que é isso que pretende transmitir aos seus formandos.

Segundo Helena Paiva existe na sociedade portuguesa um conceito muito firmado de que a reforma significa o "fim de linha", uma ideia que na opinião da socióloga é uma ideia errada que necessita de ser desmistificada.

"É essencial que eles saibam que podem continuar a fazer as coisas de que mais gostam, como dar as suas voltinhas, fazer os seus bolos e desenhos", refere

As formadoras dizem que adesão a este programa tem sido positiva e que até há quem pretenda repetir a formação.

"Temos pelo menos três alunas que já vieram falar connosco para saber se podiam voltar a inscrever-se, contam.

A importância deste tipo de iniciativas é na opinião das formadoras muito grande e por isso defendem a necessidade de se criarem mais programas similares que ajudem as pessoas a adaptarem-se à reforma.

"As pessoas precisam de estar preparadas para entrar na reforma. Esta etapa pode representar o princípio da sua vida e não necessariamente o fim", salientam.


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