Projeto sobre cérebro pode ser revolucionário para humanidade - investigador português
Lisboa, 28 jan (Lusa) -- O investigador Rui Costa, da Fundação Champalimaud, que participa num dos projetos vencedores da iniciativa da Comissão Europeia para a ciência, classificou hoje o estudo como "megalómano" e explicou que poderá ser uma das grandes realizações científicas da humanidade.
Denominado "Projeto Cérebro Humano", o estudo foi anunciado hoje como um dos dois vencedores de uma iniciativa europeia para desenvolver a ciência moderna e que irão ser financiados com mais de mil milhões de euros.
"O que se pretende com este projeto é ter O investigador Rui Costa, da Fundação Champalimaud, que participa num dos projetos vencedores da iniciativa da Comissão Europeia, classificou hoje o estudo como "megalómano" e explicou que poderá ser uma das grandes realizações científicas do ser humano.um conhecimento mais global de como é que funciona o cérebro humano e uma grande parte deste projeto implica fazer modelação em computador de todos os dados que existem sobre o cérebro. Outra parte tem a ver com coletar mais dados (...) sobre a estrutura do cérebro, a função do cérebro, o comportamento", disse à Lusa o investigador Rui Costa.
Mais do que armazenar dados, [o objetivo] é usar esses dados para criar modelos de um cérebro humano num computador para se estudar como funciona", acrescentou o investigador principal do programa de neurociências da Fundação Champalimaud.
O cientista português, que considera o projeto "megalómano", até porque "se está a estudar mesmo tudo", explicou ainda o interesse prático da iniciativa.
"Imagine-se que se consegue construir uma máquina como o cérebro, com as suas partes fundamentais. Depois é possível perguntar o que acontece quando há Alzheimer, o que acontece se se tiver um AVC e como é que se pode recuperar", esclareceu.
Este novo conhecimento pode curar ou prevenir doenças mentais e neurodegenerativas e até "prever como é que certos fármacos iriam funcionar", disse, adiantando que "o objetivo é perceber tudo, desde o `tenho fome, vou comer`, ou `agora vou-me mexer` até ao `vou tomar esta decisão` ou `tenho um pressentimento que isto não vai correr bem`".
Se o estudo correr bem e as respostas forem sendo conseguidas, Rui Costa acredita que o projeto valha um prémio Nobel ou até mais.
"É um projeto tão grande e tão ambicioso que, se se encontrarem as respostas, claro que vale um prémio Nobel, mas se calhar vale muito mais: passa a ser uma das grandes realizações científicas do ser humano", defendeu.
O cientista admite que um projeto com um financiamento tão grande - durante 10 anos terá direito a receber 1,2 mil milhões de euros, atribuídos por um consórcio maioritariamente europeu -- pode ser facilmente criticável, sobretudo porque a Europa vive uma crise financeira, mas acredita que há valores maiores.
"Este projeto é, por um lado, fácil de criticar, porque é um projeto megalómano, de grande investimento. Mas por outro lado, sem haver projetos ambiciosos para tentar saber o que é o sistema nervoso do cérebro, é muito difícil chegarmos realmente ao conhecimento necessário para intervir nalgumas doenças", lembrou Rui Costa.
Para o investigador, "a Europa não tem muitos recursos naturais como petróleo, portanto a maioria do crescimento económico tem vindo da inovação" e "criar mais-valias tecnológicas pode ser uma forma de sair da crise".
A participação de cientistas portugueses em projetos científicos desta envergadura é também vista pelo investigador como uma mais-valia para Portugal.
"Há cada vez mais investigadores portugueses de qualidade internacional e isso é de louvar, mas é preciso ver também um outro aspeto", referiu.
O país "também gera riqueza através de inovação e o facto de haver muito fundos europeus a entrar em Portugal através de bolsas competitivas é quase como exportação de conhecimento", concluiu Rui Costa.