Psoríase não é contagiosa, mas espalha a discriminação

A filha de Ana tinha dois anos quando umas manchas no corpo revelaram que herdara do pai psoríase, uma doença que afecta 250 mil portugueses, não é contagiosa, mas afasta os outros, que evitam beijar ou abraçar estes doentes.

Agência LUSA /

O "pesadelo" de Ana começou nesse ano (1999), quando estava grávida de gémeos, o que terá espoletado a doença na filha mais velha, então com dois anos, devido ao estado de stress que uma nova gravidez da mãe provoca em qualquer criança.

Hoje ainda se emociona quando fala desse período em que, "com lágrimas nos olhos", o marido a aconselhou a aceitar que aquelas manchas no corpo da filha não eram "uma alergia qualquer", um "eczema" ou uma "irritação" - como sugeriam os médicos, sem acertar no diagnóstico -, mas sim psoríase.

Ana acreditou, mas não se conformou, principalmente quando o infantário que a filha frequentava inaugurou o rol de discriminações de que a criança iria ser alvo.

"As outras mães ameaçavam tirar os filhos do infantário se a minha não saísse e não consegui inscrever a minha filha na natação", conta.

O testemunho emocionado de Ana serve hoje para "tentar mostrar às pessoas que a psoríase existe, que é muito complicada para os doentes e os seus familiares e que estes precisam de ajuda, nem que seja no pagamento dos medicamentos e muitos cremes, que não são um luxo nem usados por razões estéticas".

A história de Ana ilustra a de cerca de 250 mil portugueses que sofrem de psoríase. Alguns deles reuniram-se num grupo e apresentaram-se hoje à comunicação social para dizer que a doença existe e que é preciso acabar com a discriminação dos que sofrem.

João Belo tem psoríase e é um dos elementos deste grupo, que se pretende transformar em associação de doentes para reivindicar apoios, como a comparticipação de medicamentos pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS).

"Queremos que a psoríase seja reconhecida como doença crónica e que percebam que esta não é uma doença estética", afirmou, acrescentando: "não somos vaidosos, mas não queremos que nos fechem as portas".

A principal luta destes doentes é, contudo, contra a discriminação e todos os preconceitos que levam os outros a recusarem a mão de um doente como se este tivesse lepra.

A este propósito, João Belo enunciou algumas conclusões de um estudo sobre psoríase realizado em vários países europeus. A investigação concluiu que metade dos inquiridos (cerca de 5.000) "não se sente confortável a abraçar, beijar, partilhar uma piscina ou mesmo comer algo cozinhado por uma pessoa com psoríase".

O sofrimento dos doentes com o repúdio dos outros leva muitas vezes a serem os primeiros a afastarem-se para não serem afastados, conforme explicou o presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia, Menezes Brandão.

O dermatologista destacou a comichão, o ardor, a dor e o mal- estar geral que a psoríase provoca e a repercussão a nível social e familiar desta doença.

"Os doentes sentem-se estigmatizados e a sensação de rejeição, de defeito, de vergonha e de culpa conduzem a pessoa com psoríase a um isolamento que, em casos extremos, pode levar ao suicídio", acrescentou.

Para Menezes Brandão, estes são "os novos leprosos" a quem todos - médicos, família e sociedade - devem tentar minorar o mal- estar físico e, principalmente, apoiar emocionalmente".

A psoríase não é contagiosa e desenvolve-se quando o sistema imunitário do corpo acelera o crescimento das células da pele, que ao mesmo tempo são rejeitadas. A pele ganha então um aspecto escamado ou com crostas.

Em todo o mundo, a psoríase afecta mais de 80 milhões de pessoas.

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