Qualidades técnicas de Cavaco Silva "são um mito" - Mário Soares

O candidato presidencial Mário Soares considera que as qualidades técnicas de Cavaco Silva "são um mito" e que este "nunca foi posto à prova quando as circunstâncias mudaram", afirmou numa entrevista hoje ao Correio da Manhã.

Agência LUSA /

Mário Soares, que concorre a Belém apoiado pelo PS, diz que as qualidades técnicas do até agora mais forte candidato presidencial, Aníbal Cavaco Silva, economista e professor universitário, são "fundamentalmente um mito".

"Ele nunca foi posto à prova quando as circunstâncias mudaram.

Deixou o poder de livre vontade, na famosa questão do tabu", disse o candidato presidencial, considerando que "Cavaco Silva saiu do Governo por sua auto-recreação e porque não queria enfrentar uma situação difícil".

Colocando as suas qualidades humanistas ao lado das qualidades técnicas de Cavaco Silva, Mário Soares diz que "fez uma coisa que ele (Cavaco) nunca fez, que foi reduzir os défices".

"Eu reduzi duas vezes os défices, aconselhei duas vezes os portugueses a apertar o cinto e até a perderem o 13º mês. Não estávamos ainda na União Europeia, tínhamos um défice terrível", disse o candidato apoiado pelo PS.

Segundo Mário Soares, Cavaco Silva nunca fez isso porque foi primeiro-ministro (durante dois mandatos) numa "fase de vacas gordas".

Na entrevista ao CM, Mário Soares criticou também o silêncio de Cavaco Silva sobre várias matérias e refere que este "só fala por frases feitas, por slogans e que não diz nada sobre nada".

"O que ele quer é um cheque em branco! Ora os portugueses vão perceber isso", disse Mário Soares antes de sublinhar que "o silêncio tem a ver com marketing. Estão desejosos que o tempo passe para ele não dar duas ou três fífias e não perder mais votos".

Soares afirma que Cavaco Silva deve ser penalizado nos votos e disse estar convencido que "vai ganhar as eleições".

Questionado sobre a possibilidade de, tal como em 1986 frente a Freitas do Amaral, haver uma grande dispersão de votos à esquerda e isso poder levar a uma segunda volta, Mário Soares considera que esta é inevitável.

"A segunda volta é praticamente inevitável. Não penso que, por milagre, a direita passe a ser maioritária. Não acredito que, por mais que Cavaco Silva se apresente agora como homem de grande abertura à esquerda, o país vá votar nele", disse.

Nestas presidenciais, diz Mário Soares, o que "está em causa é a capacidade de arbitragem, de moderação, de mobilização e de dar voz às minorias", mais do que o equilíbrio de poder entre a esquerda e a direita.

"Não posso dizer em absoluto que só há presidentes na esquerda, mas acho que vai continuar a ser assim porque não acho que Cavaco Silva tenha flexibilidade para evitar a conflitualidade social que resultaria da vitória dele", disse.

Para Mário Soares, os trabalhadores portugueses, tal como disse o também candidato presidencial Jerónimo de Sousa, apoiado pelo PCP, "têm razões para não dormir descansados, porque acima dos direitos, liberdades e garantias, Cavaco põe os equilíbrios orçamentais".

Soares identifica mais uma vez o momento em que decidiu avançar com a sua candidatura às presidenciais e fala sobre o candidato independente Manuel Alegre.

"Tive o mês de Agosto para pensar e no final do mês decidi.

Fiz tudo para não ser candidato, apoiei a candidatura de António Guterres, embora estivesse convencido que ele não ia avançar", disse.

Questionado sobre a veracidade do que disse Manuel Alegre - que ficou com a certeza de que Mário Soares avançaria ao ouvir o discurso que fez no seu último aniversário, em Dezembro de 2004 - o candidato presidencial diz que não.

"Não, evidentemente que não. Isso é uma impressão poética com que ele ficou", disse Mário Soares.

Nessa ocasião, Soares disse que estava definitivamente afastado da política activa e rejeitou qualquer cenário de se candidatar a cargos públicos.

"Estive um mês a pensar e só aí é que avancei e o Alegre nunca avançou. Andou sempre em hesitações. Fez aqui uma trapalhada. A avaliar pelo que tenho ouvido de todas as estruturas do PS, do secretariado, da comissão nacional e dos amigos do Alegre que o apoiaram na campanha para ser secretário-geral do partido, todos me disseram para avançar", disse.

"Ele avançou porque foi insuflado. Mas está no seu direito, reconheço-lhe esse direito", considerou ainda.

Questionado sobre o que fará se Manuel Alegre passar com Cavaco silva à segunda volta, Mário Soares diz que apoia o candidato independente como apoiaria Jerónimo de Sousa ou Francisco Louçã, se fossem eles.

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