"Quando formos derrotados seremos felizes para toda a vida"
O secretário-geral do PS, José Sócrates, definiu o exercício do poder como uma actividade aliciante mas considerou que a felicidade "para toda a vida" chegará quando os socialistas forem derrotados e passarem à oposição.
A seguir ao debate mensal na Assembleia da República, o primeiro-ministro e secretário-geral do PS juntou-se aos deputados socialistas num colóquio sobre a "transformação da política na era da globalização", com o filósofo espanhol Daniel Innerarity.
Sócrates falou no início do debate e no final quis falar novamente para se declarar feliz e relaxado ao escutar "um filósofo que dá uma perspectiva refrescante sobre a política" mas, ao mesmo tempo, consciente de "tudo o que se perde com o exercício do poder".
"O primeiro-ministro vai tendo algum tempo para vir a estas coisas, o que eu pensei que ele não tinha", comentou, a meio do Clube Parlamentar do PS, o deputado socialista Ricardo Gonçalves.
Prosseguindo a descrição dos seus "sentimentos", José Sócrates suscitou risos na sala quando revelou que, durante a sessão, se recordou do tempo que passou na oposição nos três anos antes de se candidatar à liderança do PS.
"Éramos deputados e tínhamos tempo para ler, para intrigar e até para falar dos outros", lembrou, acrescentando que concorda com a opinião do guitarrista dos Beatles George Harrison de que "a felicidade é abrir os jornais e não falarem de nós".
"Isto é uma coisa que nós almejamos. Só se alcança no momento supremo que é o momento da derrota. Quando formos derrotados e passarmos à condição de oposição, então seremos felizes para toda a vida", concluiu o primeiro-ministro, provocando mais risos.
O secretário-geral do PS aproveitou para elogiar Jaime Gama, que foi o número um da sua lista para os órgãos nacionais do partido nos congressos de 2004 e de 2006.
Sócrates referiu que o presidente da Assembleia da República "é também um filósofo, é um dos políticos mais distintos do PS, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e foi o ministro mais novo da democracia".
"Todos nós aprendemos muito com ele ao longo dos anos. Ele costuma dizer que a carreira do político é a única que termina sempre com uma derrota. Podemos ter isso por certo", afirmou.
Da obra de Daniel Innerarity, que contou ter conhecido quando António Costa lhe ofereceu um livro pelo Natal, Sócrates disse ter retido que "a política é a aprendizagem permanente do convívio com a decepção", uma frase que o "impressionou e iluminou".
"De facto é um pouco isso. Se há treino que os políticos devem ter é o que resulta do convívio com a decepção e das forças morais que têm de encontrar para responder a essa decepção", declarou.
"Felizmente eu não tenho que me queixar das decepções na vida política", rematou, porém, logo depois.
Sócrates considerou que existe uma "necessidade de os cidadãos não transportarem para a vida política tantas aspirações" porque "a política é a arte do possível", a propósito das teorias defendidas pelo filósofo basco.
O primeiro-ministro realçou que quem exerce o poder é chamado "a decidir em situações complexas, exigentes e urgentes", o que é "difícil mas também muito aliciante" e por isso "ninguém deixa de se sentir tentado a estar lá para decidir".
"Isto é um mundo de risco, de alto risco mesmo", resumiu, confessando que a introspecção, a autocrítica sobre as decisões que se tomam, se são certas e inteligentes, "é um exercício em si muito difícil" e dificultado pela "urgência do tempo".
"Há uma alternativa: a politica kitsch, perfeitinha, com um estilo arredondado, em que se pergunta às pessoas o que querem que se decida. Com `focus group`, estudos de opinião e depois é só dizer as palavras certas. Isso é fraco. É preciso de vez em quando arriscar. O risco é mesmo o segredo disto", sustentou.
O ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa, e o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto dos Santos Silva, também estiveram presentes na sessão do Clube Parlamentar do PS.